domingo, 15 de maio de 2011

Perdoai-lhe Senhor... (1982-1997)

PERDOAI-LHES SENHOR PORQUE NÃO SABEM DO QUE FALAM….

Veio parar-nos às mãos a convocatória, o comunicado e o manifesto eleitoral da REP e, naturalmente, não passaríamos da simples leitura se não houvesse ali o chamado direito de resposta por, nestes textos, constarem TODOS os Radioamadores e TODAS as Associações.
Num dos últimos escritos sobre a conjuntura nacional do Radioamadorismo abordávamos a falta de diálogo e a pseudo cúpula de uma estrutura caquéctica, apodrecida e fascizante chamada Rede dos Emissores Portugueses. As pessoas mudaram nas sucessivas direcções, as comissões administrativas foram um denominador comum entre as muitas crises daquela estrutura associativa mas algo se manteve e mantém com o nauseabundo cheiro a passado sobre vestes de púrpura e o cheiro a incenso.
A REP é, no panorama do radioamadorismo nacional, uma associação como todas as outras criadas em Portugal. Numa nota futura iremos transcrever o que o Procurador da República exarou aquando da constituição da ARAS respondendo ao pedido de impugnação pela REP a propósito do carácter nacional ou regional, e porque não, também, o que então representante principal da DSR, Eng. Patrício, disse ao delegado da REP numa reunião e quando este reivindicava estatuto especial, por ser a representante da IARU.
Será bom lembrar que na escritura de constituição da esmagadora maioria das associações, senão na totalidade (não conhecemos as que requereram o seu estatuto de menoridade) há uma figura comum de organização nacional, pelo que nos parece de todo descabido que se diga «que cerca de 1500 sócios da REP (aqui só acreditamos se nos provarem com auditoria independente) tem vindo a sustentar uma estrutura nacional que é usada por mais de 3500 amadores independentes».
Voltamos a lembrar que a estrutura foi fruto de TODOS os Radioamadores nacionais e por eles sustentada durante mais de 50 anos e não da maioria dos actuais sócios da REP e, de entre aqueles, de pouco mais de uma dúzia, que deixaram nos cofres da REP muitas centenas de milhares de escudos que foi malbaratado, em parte roubado e que um só radioamador teve a hombridade de repor, no valor que lhe correspondia dessa responsabilidade e esse teria de ser indubitavelmente do Norte (que me desculpem os bons radioamadores a sul do Lis).
Primeiro, porque a REP nunca foi, na verdadeira acepção da palavra, uma associação nacional, sempre foi, isso sim, uma associação regional (de Lisboa, como aliás o confirma o actual presidente da Direcção) ingovernável, apoiante e insofismavelmente genuflectora do regime anterior ao 25 de Abril, com lutas intestinas e falta de interesse na defesa dos radioamadorismo português. Voltamos a lembrar o processo CT1MZ, quer quando era Presidente da REP quer quando foi «expulso» de sócio porque se tornou incómodo à minoria mandante, também naquela altura um pouco à imagem do potencial impugnador da Assembleia de Oliveira de Azeméis mas, ao contrário deste, nunca deram um tostão. Mas o que podemos nós esperar de uma associação que nasceu e cresceu com a obrigatoriedade associativa imposta pelo próprio regime como única forma de controlar a actividade. A liberdade que foi devolvida ao povo português com o 25 de Abril não subiu ao 5.º andar da Rua D. Pedro V. Em qualquer escrito que dali sai se vislumbra a arrogância, a sempre famigerada hereditariedade de «associação única e supranacional», com a agravante de se transmitir um saudosismo aberrante e o risco de, à sua sombra, se estar a gerar uma juventude defensora de novos «camisas negras», pela instigação à destruição de todas as estrutura criadas, mercê da liberdade associativa, que em boa hora foi decretada.
Não nos deteremos a classificar os três panfletos que nos chegaram às mãos por serem contraditórios, demagógicos e, acima de tudo, insultuosos para alguns sectores do Radioamadorismo de Norte a Sul do País.
Pertencemos a uma geração de radioamadores que sempre se mostrou acima dos comezinhos interesses pessoais, do culto da personalidade ou do seguidismo interesseiro, de como se diz no Comunicado da Direcção «é uma pessoa muito influente, detentora de imenso poder económico pelo que, a Rede dos Emissores Portugueses e os seus Sócios (os presentes pelo menos) não detinham capacidade financeira, nem poder social, capaz de sustentar causas de conflito a decorrer nos Tribunais portugueses». Esta é forte demais para os presentes naquela assembleia, primeiro porque não corresponde à verdade e segundo porque se trata do reflexo latente da pobreza em contraste com a riqueza que se divulga para o exterior.
Esqueceu o comunicado que foi devido a este Radioamador que a REP ainda existe e que o seu poder económico e a sua influência social possibilitou que uma centena (desculpem se foram menos) deu à Rede dos Emissores Portugueses centenas de milhares de escudos.
Não nutrimos (apenas e só como radioamadores) qualquer simpatia pelo percurso e pelas atitudes desse radioamador, mas manda a justiça, porque essa é cega, que se dê a César o que é de César e se deixe «os filhos ingratos e degenerados assaltarem e dizerem mal do pai.»
Não nos surpreendeu que no ponto seis do comunicado tivesse surgido uma referência a CT1BH, como aproveitamento de uma situação que nada tem a ver com a situação actual, mas que vem de 1975, com o grito do Ipiranga contra a diatribes e a prepotência da chamada associação nacional, que por muito que se brade no deserto, continuará a ser exclusivamente de Lisboa e só por conveniência ou demagogia se abrirá ao Norte. Apenas se pretende que alguns incautos dêem o corpo às balas com o seu sempre nobre e leal respeito pela honra da sua palavra, para alimentar as lutas intestinas geradas pelo sentido de vingança ou de poder e nunca na defesa dos interesses da actividade de meia dúzia de desconhecidos que, como piolho em camisa lavada, se metem por todo o lado, em bicos de pés, para ver se alguém se lembra deles, já que a vida lhes foi madrasta.
Permita-me meu bom amigo e sempre querido CT1BH que quase emocionadamente, num rasgo último de orgulho de ser nortenho, lhe diga, de uma vez por todas, que regresse ao seu estilo e ao seu estatuto. Regresse, meu querido «professor», aos anos setenta e seja o arauto de uma nova e mais saudável confraternização entre todos nós, faça da verdade a nosssa revolução e denuncie connosco a hipocrisia que faz do actual radioamadorismo alguma coisa que nada tem a ver com o «nosso» radioamadorismo, vivido e reflectido nas reuniões do Palácio de Cristal, de Coimbra, da Lousã e do Cartaxo, etc., etc.     
Seja novamente o líder como o foi naquele tempo e abra as hostilidades. Ajude-nos a contar aos mais novos o que sabemos do que foi a REP desde os anos 40 até hoje. Deixe que nós, os que nascemos no radioamadorismo à margem da associação nacional, que nos socorríamos dos que hoje nos trazem as lágrimas aos olhos pela saudade que temos deles, que foram, também eles, os seus mestre e iguais, nos olhem e nos envolvam, nos transmitam e nos encorajem a transmitir o sentir de quem viveu como clandestinos na visão da dita associação, que para nós apenas existia no papel e de que ouvíamos falar como de estrangeira se tratasse.
Já que é nomeado como voz credível na defesa do Norte que o seja na verdadeira acepção da palavra, como nós acreditamos que o foi, é e será, recorde a irreverência de CT1EE, a bondade de CT1GE e frontalidade e humildade de CT1OZ e «diga» aqui e em todo o País, como o disseram os nossos antecessores quando o «Rádio Clube Português, pela mão de Botelho Moniz, quis monopolizar todas as demonstrações vitais da união radiófila».

A maior exposição realizada em Portugal

http://www.qsl.net/cs1aas/public/ARASEXP1982.pdf




sábado, 14 de maio de 2011

Palácio de Cristal e o Radioamadorismo

O meu primeiro convívio de radioamadores
Estávamos no ano de 1964. Como me pareceu ser habitual (nunca indaguei se assim era), realizou-se mais uma Feira Popular, no Palácio de Cristal, na cidade do Porto (hoje Pavilhão Rosa Mota).
Na última rua da Feira, já na vertente para a Rua da Restauração, sensivelmente a meio, estava o pavilhão dos Radioamadores.
Os grandes entusiastas desta iniciativa foram os jovens: CT1BH, CT1WB, CT1IK, entre outros.
O pavilhão teve a visita de muitos radioamadores, muitos curiosos e do Presidente da República, para além de individualidades do Governo e Autárquicas.
Mas, o mais importante, para mim, foi o almoço-convívio, que reuniu grande número de radioamadores de todo o País. Deste número quero destacar o grupo dos «Kapa-Marretas», encabeçados pelo CT1KM, homem de uma frontalidade radical que em todas as Assembleias da REP marcava presença, tendo, numa delas, feito um discurso, só com termos da Marinha. Lembro que anos depois vim a conhecer o sobrinho, que com ele viveu, e que também se fez radioamador, o CT1BWI (o Júlio César), meu bom amigo e colaborador nos princípios da Associação de Radioamadores da Amadora-Sintra.
Fiquei, na mesa, entre o CT1EE e o CT1OZ, em frente ficaram, o CT1LD, o jovem Mário Rocha Alves, seu filho, e  que, após o falecimento do pai, passou a usar o mesmo indicativo; o CT1DT, que me impressionou pela altura e pelo bom humor e o CT1CC.
Vim a saber, mais tarde, que o CT1KM estava de relações cortadas com o CT1CC, porque este, uma noite, já a desoras, encontrando o CT1KM, em 80 metros, o fez saber que tinha estado a falar com o CT1DJ e, de repente, quando este estava a transmitir, ouviu um grande estrondo, nada mais se ouvindo, pelo que depreendia que se tinha passado algo de muito estranho e que, infelizmente, não tinha carro, porque senão já estaria a caminho do Estoril, onde o DJ morava.
Ouvindo isto o CT1KM, sem mais delongas, meteu-se no carro em pijama e roupão, e de imediato galgou os quilómetros que separavam a Infante Santo do Estoril. Chegado a casa do DJ bateu à porta. O CT1DJ, acordou assustado, pelo adiantado da hora, levantou-se e abriu a porta da rua, deparando com o CT1KM, que em traje de noite, lhe contou a conversa que tinha tido pela rádio com o CC.
O CT1DJ que conhecia bem o CT1CC, largou a rir e, com o ar bonacheirão, que lhe era habitual, disse: Ó KM então você não conhece o barreteiro do CT1CC? Como é que você caí, que nem um patinho, na conversa dele?
O CT1KM furioso, regressou a casa, jurando que nunca mais falaria ao CT1CC, e assim  aconteceu.
Mas voltemos ao Palácio de Cristal.
Antes do almoço e como havia chegado cedo, decidi aproveitar a oportunidade para fazer alguns contactos, uma vez que a estação disponibilizada para a Feira tinha uma potência de 1 KW, o que era, para a época, invejável.
Quando já tinha feito alguns contactos, chegou um radioamador (cujo nome não vou mencionar, pelo imenso respeito que hoje tenho por ele) que me abordou, chamando-me a atenção de que não podia usar aquela estação, uma vez que a carta de amador que possuía não autorizava, quer a potência quer a frequência.
Ora, acontece, que já havia feito exame para a categoria C, meses antes, e a DSR tinha-me enviado a respectiva carta, pelo que fiz saber ao interpelante que, com a categoria C, poderia operar aquela estação.
Dias depois, recebi uma carta, particular, do Eng.º Patrício, então chefe da secção que atribuía as cartas de amador, na DSR, pedindo-me para lhe enviar a carta de amador da categoria C, alegando ter havido engano e fazendo-me saber que estava em jogo o seu emprego.
Escusado será dizer que nesse mesmo dia, em carta registada, fiz seguir a respectiva carta para a DSR, ao cuidado daquele funcionário, informando-o que o radioamadorismo eram «hobby» e, como tal, incompatível com a situação que colocava em perigo o seu emprego, disponibilizando-me para tudo o que fosse necessário a bem da sua situação futura.
(Abro aqui um parêntesis para informar os meus leitores - tal como já relatei anteriormente -  que a minha entrada para o radioamadorismo só foi possível pela intervenção de um oficial superior, colega de meu pai e muito amigo, que conseguiu desbloquear a autorização para fazer exame de radioamador, uma vez que, apesar de todos os meus esforços, não consegui, através dos meios habituais, fazer que a PIDE, que era o crivo de entrada para a modalidade, despachasse o meu pedido, que antes seis meses tinha dado entrada naquela polícia, da Rua do Heroísmo).
Tempos depois voltei a fazer exame tendo o cuidado de não sair do Alto da Maia sem ver analisada a minha pauta e me ser transmitido de que tinha feito o suficiente para ser aprovado.
Logo depois, a convite de um periódico de Lisboa, deixava a cidade do Porto, não sem uma profunda saudade, pelas amizades que, quer a nível profissional quer no Radioamadorismo, deixava para trás, sabendo de antemão que a minha actividade de radioamador iria sofrer um  interregno.




Uma reunião ARAS-REP bem rica de fraternidade

NÃO É POSSÍVEL QUE ESTA SITUAÇÃO
DE IMPASSE SE MANTENHA
Quando o actual presidente da REP nos telefonou para uma reunião com a ARAS, na nossa sede da Amadora, não resistimos à tentação de aceitar o convite, muito embora soubéssemos quanto restritivas poderiam ser as suas conclusões. No nosso espírito e no nosso interesse algo se sobrepunha a esta comezinha circunstância. O que interessava, afinal, era conversar informalmente, trocar impressões, mais como radioamadores ciosos de estabelecer uma fraternidade de saudosa recordação do que propriamente arrancar o sonho de uma união de forma, com respeito pela igualdade de direitos e de território. No dia aprazado, com a respectiva ordem de trabalhos cuidadosamente elaborada, deu-se início à reunião.
Primeiro, num estudo preliminar que mais parecia um prelúdio de luta do que aquilo que, após a abertura da garrafa do indispensável néctar que une corações, trazendo ao de cima a franqueza, a frontalidade e a verdade. O formalismo inicial quebrou-se, como por encanto, o protocolo desapareceu nos sorrisos de orelha a orelha, e o convívio estabeleceu-se e a garrafa de bom Porto foi-se esvaziando como a lâmpada de Aladino que se esfrega e nos traz todos os desejos e toda a felicidade.
Tinha-se quebrado o tabu. Durante algumas horas revivemos as décadas de 50 e 60. Como por encanto sentimo-nos transportados para o Norte, mais concretamente para cidade do Porto. Os circunstantes transmudaram-se e comecei a ver à minha volta e a sentir o calor fraternal, o espírito de entreajuda, a espera e a alegria de mais uns convivas, de mais «irmãos», de mais elementos na «família» de radioamadores. Senti o entusiasmo contagiante do CT1EE (Dr. Fernando Pinheiro; o médico dos pobres; o homem que não casou por muito amar aquelas duas senhoras (a mãe e a tia)
com quem vivia e poder fazer da sua profissão o sacerdócio que o matrimónio certamente não autorizava; o CT1GE (dr. Oliveira Alves); o CT1JH, que não desistiu
enquanto não me impingiu dois autotransformadores 220/110 para que, em série, e com um circuito dobrador de tensão obtivesse a tensão de placa necessária para alimentar as 807; CT1IQ, o meu querido e saudoso amigo e colega, que um acidente de viação havia de levar ainda em plena juventude, que juntamente com o pai, talvez o primeiro CT1BM, me entusiasmavam para construir a cúbica e colocá-la no cimo do telhado da vivenda que então me servia de abrigo em Ermesinde, prontificando-se a fornecer-me o sinal indispensável para afinar os «stubs», do reflector, para melhorar a relação frente-costas. O CT1UK, aqueles dois metros e tal e os cento e tantos quilos que um dia vi, sentado no meu velhinho 30 cavalos, levando o volante entre os joelhos, numa deslocação a Santo Tirso, onde ia buscar a «Maria Maluca» que queria experimentar na não menos enorme vivenda que se destacava no conjunto de casas normais naquela vila onde vivíamos (hoje Externato Santa Joana, em Ermesinde). O CT1IK e o CT1BH, o primeiro na Rua Alves da Veiga e, o segundo, já no seu consultório, ali junto da Batalha, os jovens «intelectuais da radiofonia», quase inacessíveis, do CT1OZ, que lá para os lados da Constituição fazia a vida negra ao pároco do Marquês, interrompendo as suas homilias com as sempre insistente chamadas gerais em cima dos QSO´s onde queria entrar. Mas... «minha rica Nossa Senhora», onde eu já vou com as minhas deambulações, esquecendo-me que estou em pleno século XXI e que este «negócio de velhos» é uma miríade para quem luta por um lugar ao sol e outro em terra, indispensável, mesmo que se tenha de esmagar o vizinho; onde, falar-se de amizade, de confraternização, de união desinteressada, é o Éden.
Desculpem-me se me desviei da descrição que estava a tentar levar até vós: a reunião de alguns elementos dos corpos gerentes da ARAS e da REP, onde se falou das muitas Associações existentes e das poucas em actividade; de algumas que só constam no papel porque as pessoas que as fundaram não se incomodaram em extingui-las legalmente; da necessidade de juntar esforços
para criar o dialogante válido junto da ANACOM (ex-DSR, ex-ICP e se demorarmos algum tempo será ex-ANACOM), de molde a afirmar as nossas reivindicações e requerer os nossos direitos, a par da exigência de fazer actuar a indispensável fiscalização porque, sem tudo isto, seremos, como temos sido até aqui, preza fácil e rebanho dócil a que se impõem regras de todo o jaez, sem sequer apurar se está a pôr em causa a imagem do País e dos utilizadores desta área do espectro radioeléctrico.
Foi, sem dúvida, e tal como prevíamos, uma reunião onde se falou um pouco de tudo e, como convinha, sem conclusões, o que contraria os formalistas, mas a nós nos agrada, pelo muito que serviu de observação e análise para futuros encontros que, como ficou ali assente, seria, num futuro próximo, retribuído pela REP.
Mas, afinal, perguntarão os meus leitores: onde está a razão do título?
Para o bom entendedor... Até à próxima se Deus quiser!...
Boletim da ARAS – 2002

O 25.º Aniversário da ARAS - 2007

 CONSTRUIR O FUTURO OLHANDO O PASSADO
Aproximámo-nos, a passos largos, do décimo nono aniversário da ARAS. Para quem, como nós, viveu intensamente os acontecimentos do antes e do após escritura de constituição, sente um misto de missão cumprida e de alguma frustração por não ter conseguido, na totalidade, os objectivos a que nos propusemos.
Estes anos, que estivemos ausentes dos órgãos directivos da Associação, não deixando, contudo, de acompanhar os acontecimentos por mero interesse histórico, constatamos que todas as tentativas que foram feitas para a tão almejada união de todos os radioamadores portugueses se goraram.
É uma verdade de «La Palice» a de que enquanto os radioamadores portugueses não forem capazes de criar uma estrutura de cúpula, sólida e credível, não será possível levar por diante algumas da mais legítimas aspirações e obrigar as estruturas governamentais, das quais dependemos, a abrir a porta que nos daria entrada e assento, como parceiros válidos, na defesa dos interesses Nacionais e da mais valia que representamos, quando nos fossem oferecidas as condições para a investigação e participação activa ao mais alto nível.
Tudo, como é óbvio, depende dos homens e quantas vezes as associações são o bode expiatório das ambições ou frustrações pessoais, da decadência intelectual de uns ou do analfabetismo de outros.
Entendemos ser natural que todos os radioamadores, que são eleitos para dirigentes de uma qualquer associação, tenham a obrigação de defender, intransigentemente, os interesses dessas associações mas, também, não será menos verdade, no nosso entender, que a defesa desses mesmos interesses começa na capacidade de sabermos conduzir a acção, tendo em vista o essencial em vez do acessório.
Uns vêm a terreiro alegar que são os representantes internacionais, outros alegam a representação territorial, outros a longevidade e ainda outros escondem-se atrás da bandeira das associações, que apesar de terem nascido sob bons e prometedores auspícios “deram já a alma ao criador”.
A realidade é cada vez mais evidente: o “rebanho” anda cada vez mais desgarrado, fruto de uma “miséria fransciscana” em que cada um, julgando-se superior ao outro, se distancia de tal maneira que quando olha para trás, repara que está só.
De que valeu a Judas os trinta dinheiros se isso o levou ao suicídio!
Caros colegas, pensem, façam uma retrospectiva da nossa actividade e do que ela vale a nível Nacional.
Analisem os actos isolados que vão surgindo sem uma coordenação de esforços. Quantos dos nossos colegas abandonaram o contacto e se restringiram ao espaço restrito do seu “laboratório” trabalhando, a maior parte das vezes, sem o espírito humanista que sempre presidiu às nossas iniciativas. Constatem o que cada uma das nossas associações faz sem que isso obedeça a um programa de carácter Nacional e com o sentido de continuidade que essa situação permitiria.
Concluiremos, acreditando que também nada vamos conseguir, porque a “beleza” do umbigo de cada um vai fazendo com que a actividade vá sucessivamente desaparecendo e se destrua a si própria e impedir que o projecto se realize, à imagem da gesta dos heróis das primeiras décadas deste século XX.
Pela nossa parte iremos continuar a manter viva a Associação que ajudamos a criar e, como impusemos a nós próprios, continuaremos a bradar no “deserto” com a esperança de encontrar o “oásis”, que mais não é do que o paraíso e, talvez por isso, inatingível.
Boletim  da ARAS, Setembro de 2000

Os novos corpos sociais da ARAS

NOTA DE ABERTURA
A primeira Assembleia Geral deste ano decidiu eleger novos corpos sociais para o biénio 2006/2007, trazendo, com esta tomada de posição, o merecido descanso aos anteriores e uma responsabilidade acrescida para os que chegaram. Responsabilidade acrescida porque este ano se comemoram os 25 anos da constituição da associação. Não foram anos fáceis os que levamos de vencida. A credibilidade e o respeito que lhe foi dispensado não deixam lugar a dúvidas. Muito poucas terão conseguido tanto em tão pouco tempo. Quando olhamos para trás sentimos, que apesar dos acidentes de percurso, estes 25 anos, que passados desde a escritura de constituição, em 12 de Novembro de 1981, podem constituir o orgulho não só dos sócios como de todos os radioamadores portugueses. Sim, de todos os radioamadores portugueses, porque  conseguimos, com o dinamismo que é próprio de quem acredita que pode ser útil, dar um salto em frente nas mais diversas modalidades. Levamos a efeito a maior exposição de radioamadorismo jamais vista ou igualada antes e depois de nós. Detemos na nossa sede o maior troféu do radioamadorismo português, uma relíquia que marcou uma época áurea da nossa modalidade e que mais ninguém soube preservar. Podemos dizer que se a esmagadora maioria dos radioamadores se afastou das associações não nos cabe qualquer culpa… muito pelo contrário. Estamos hoje perante uma total incapacidade legislativa porque em vez de colocarmos como primeira prioridade o interesse nacional nos detivemos em lutas comezinhas, enquanto os nossos opositores batiam palmas e alimentavam a luta que acabaria por destruir todo o esforço que foi feito para constituir o dialogante válido, que com o apoio de todos levaria à vitória futura.
Assim não aconteceu e hoje vemo-nos confrontados com a frustração de ter que aceitar todos os ataques que nos são feitos, relegando-nos para os «meninos obedientes» a quem só resta aceitar o que o fruto da inércia foi capaz de gerar. (Dizemos inércia, porque este nos parece o termo mais elegante, deixando à vossa inteligência a tradução correcta do «palavrão». Apesar de tudo aqui estamos, prontos a dar testemunho destes 25 anos de vida activa, relegando para segundo plano as desavenças, esquecendo os «velhos do Restelo» ou os vanguardistas irresponsáveis e tentando colocar, mais uma vez, o radioamadorismo acima de tudo e de todos. Vamos iniciar, com este mandato, uma nova etapa. Vamos certamente deixar o nosso último testemunho de vitalidade. Assim o queremos, assim se fará.
Boletim da ARAS, de Março de 2006

A minha colaboração no Boletim da ARAS - Amadora

O SONHO DE UMA VIAGEM NO TEMPO PASSADO...
Acabamos de ler o «Jornal da R.E.P.», n.º 0, de Dezembro de 2000, apesar de estarmos em Novembro, e ainda sem as boas-festas, como mandam as regras.
Na televisão, o locutor chama-nos a atenção para as ruas de Berlim, onde decorre uma manifestação de «cabeças rapadas», jovens responsáveis por alguns crimes de racismo e xenofobia, pertencentes a um partido radical de direita, confrontando-se com uma outra de gente adulta, que sofreu na carne os horrores do nazismo e que clama pela ilegalização dos resquícios de tal desgraça mundial, cujas feridas ainda não se encontram completamente curadas.
O cansaço apodera-se de nós, as energias despendidas pela longa leitura e a violência que as imagens suscitam, não resistimos e adormecemos.
Somos levados para o centro de uma imagem fantasmagórica, todo o período que decorreu de 1926 a 1974 surge numa sucessão, como se viajássemos no tempo. Um muro começa a elevar-se à nossa frente, do outro lado muitas pessoas fazem gestos como num adeus, de entre eles reconhecemos os quatro jovens da Calçada do Combro, das ruas de Marcos Portugal, da do Ferragial de Baixo, da de Bartolomeu Dias, da Travessa de S. Sebastião à Praça da Flores, da Rua da Esperança, todos em Lisboa. Aflitos, querem
também transmitir-nos uma mensagem que a arruaça à nossa volta não nos deixa ouvir, fazemos mais um esforço e conseguimos, num extremo, perceber:  gritam que acabou a liberdade e com ela a possibilidade de criar novas pesquisas e novas tecnologias, iríamos viver do que nos outros países se iria descobrir.
O muro subiu e toda aquela gente desapareceu. O barulho ensurdecedor que se gera à nossa volta leva-nos a reparar num grupo, dividido em duas alas: os dois levam na frente, em posição de comando, dois oficiais do Exército que apenas diferem porque um deles leva uma coroa em vez do boné. Achamos a imagem caricata e é uma voz, ao nosso lado, que nos apresenta as ditas personagens: o primeiro é o responsável pela criação da Legião Portuguesa, (organização de «bufos» e informadores da PIDE que orgulhosamente assinaram os célebres 27.003 e o 1901, a troco de meia dúzia de tostões) e, ainda, o comandante de uma força que tomou o nome de «Viriatos» na Guerra Civil de Espanha ao lado de Franco. O outro, um monárquico neomiguelista, de menor importância na República rectificada, autoritária e corporativa. Ambos têm de comum o «protofascismo», bebido nas hostes dos «camisas negras», do Partido Nacional Fascista, na conjugação do eixo Roma-Berlim. Dirigem-se para a Costa do Castelo.
Assim nasce uma organização, que ao bom estilo da época, passa a ser, por vontade da Ditadura Militar e já sobre os olhares da Polícia Especial de Lisboa (polícia política constituída por agentes da recém-extinta Polícia Preventiva de Segurança do Estado) a única e obrigatória.
Aliás, nem outra coisa era de esperar, uma vez que desde Junho, desse mesmo ano (1926), se iniciava a censura à Imprensa. Os candidatos à modalidade vão passar pela peneira da PIDE antes de entrarem na actividade, obrigando alguns, a ludibriá-la, para passarem pelas malhas apertadas.
É neste cenário que a confusão se estabelece nos corpos gerentes para nunca mais parar. A luta pelo «poder», tornou-se uma bandeira, e a submissão ao regime, uma religião.
Assim o vai determinar, como presidente da assembleia geral, o «herói» da guerra civil de Espanha e «pai» da Legião Portuguesa. As acções de uma rádio (são os valores que serviram de moeda de troca para a fusão e, assim, «constituir o monopólio e controlo de todas as demonstrações vitais de união radiófila»), desaparecem misteriosamente tal como tinham aparecido. O dinheiro da quotização dos sócios é roubado em valores muito elevados para a época.
As assembleias passam a ser autênticas batalhas campais, em que os grupos, entretanto formados, se insultam mutuamente, a que a presença, em cátedra especial, do engenheiro-director do organismo estatal não consegue evitar.
Depois de algum esforço, o Porto consegue instalar uma delegação, que se estabelece em plena Praça dos Fenianos, mas, infelizmente, é sol de pouca dura. Lisboa, verificando que aquela delegação ultrapassa a sede, num golpe de teatro, acaba com ela.
Apesar de estarmos enxameados de agentes da PIDE, as coisas começam a complicar-se pela entrada de uma nova vaga de sócios, mais exigentes e menos conciliadores ou «obedientes», a que se juntam alguns graves problemas resultantes dos acontecimentos nacionais, que vão dificultando o regime e condicionam o autoritarismo imposto para o exercício da actividade.
Era inevitável: um desses sócios insurge-se e «obriga» a direcção, numa atitude prepotente e discricionária, a suspendê-lo, oficiando imediatamente a estrutura superior para que, com base na legislação então existente (no papel), o suspendesse também da actividade. Mas outras preocupações evitam que aquela estrutura obedeça, apesar da insistência da direcção. Mas a formação que está subjacente aos crentes e seguidores da ditadura não perdoa. Convoca uma Assembleia e aí tira da «cartola» uma proposta de expulsão do dito. Alguns sócios pedem, legitimamente, explicações para o conteúdo da proposta, uma vez que queriam votar em consciência. Ingenuidade de quem não estava habituado aos métodos. Resultado: foram insultados e, adivinhando o que iria acontecer se continuassem presentes, abandonam a assembleia, e a proposta é aprovada. A «vítima», ainda hoje exibe a carta que lhe foi enviada dando conta da expulsão, como o maior troféu da sua longa vida de radioamador.
A liberdade chega com o 25 de Abril (Decreto-Lei n.º 594/74). No Porto, através do seu mais prestigiado representante da modalidade a nível nacional e internacional forma-se, com outros colegas daquela cidade e de cidades envolventes, a primeira associação, começando um ataque, ainda hoje ímpar, em todas as direcções contra aquela que havia sido o travão e o desprestígio da actividade. Nunca será demais realçar que aquele notável portuense ficará na história como único responsável, por nós aplaudido, pela
coragem que soube transmitir aos colegas, possibilitando o nascimento de outras associações nas diversas regiões do País.
Uma das razões que terá levado aquele colega a ocupar um lugar na cena internacional foi, pensamos nós, o conhecimento de que a associação nos seus quase quarenta anos jamais compareceu nas reuniões do organismo internacional, e, pior do que isso, ter delegado na congénere espanhola a sua representação, no decurso da sua existência.
A constituição de um número significativo de associações por todo o País impõe uma atitude que, no nosso entender, era merecedora de nota: começa a pensar-se na formação de uma Federação, como única via para a união e o diálogo com as entidades que superintendiam a modalidade, a exemplo do que já acontecia com outras. Mas, com os princípios que lhe eram naturais, e na impossibilidade de boicotar a formação daquela estrutura de cúpula, abandona-a quando se prepara a escritura da sua legalização.
Alguns anos passam e mais uma vez, algumas associações, que entenderam que o processo anterior não tinha sido bem conduzido e convencidas que eram capazes de «converter» a associação que, a cada passo, levanta a bandeira de ser a única como delegação da estrutura internacional, esquecendo-se sempre que isso lhe foi imposto e nunca uma sua iniciativa, porque a eternamente «única», era, em 1933, com Salazar no governo uma exigência do regime e só ele, ou alguém com reconhecida fidelidade, quiçá como seu mais directo e «querido» colaborador, poderia ultrapassar as fronteiras deste País, para fazer parte daquela organização -, mais uma vez deixa, agora com outro título, a estrutura federativa, usando a mesma táctica e os mesmo argumentos.
O que não conseguimos vislumbrar é que quem representa sensivelmente 15% (?) dos praticantes (cumprindo-se os Estatutos e não contando os que já deixaram de pagar quotas e se calhar alguns dos já falecidos - enfim... (deformações), se arrogue ao «direito» de falar em nome de todos como, se para tal, esses três mil e tantos lhe tivesse passado procuração.
E para terminar, se alguma dúvida ainda restasse de que o «berço o dá a tumba o leva», bastará ler os últimos «regulamentos» conhecidos, para se verificar, que ali apenas mudaram as moscas porque, na raiz, continua num sebastianismo - bolorento - evidente, a utilizar-se dos mesmos termos e da mesma prepotência, só que, infelizmente, o que havia para destruir já ela destruiu e, assim, nem a sua chantagem do «cartão» faz aumentar os subscritores, nem os órgãos que administram a actividade e governam o País perdem tempo a colher os seus insultos.
Voltamos a ver os nossos colegas do primeiro quarteirão deste século, agora sorrindo e pedindo-nos que voltemos a ressuscitar o espírito da organização, que morre na sequência do 28 de Maio de 1926, que utilizemos as mesmas armas, e tal como naquela célebre assembleia que lhe pôs fim, apontemos o dedo aos detractores porque isso, ao contrário do que aqueles querem fazer crer para se protegerem, é restaurar o entusiasmo e a fraternidade, com uma dupla vantagem estamos em democracia e a mordaça dos anos subsequentes à década de 30 só existem no saudosismo barato de uns quantos que espreitam a oportunidade de uma noite de nevoeiro. Há quem não acredite: «mas que los hay... hay».
Falam-nos de muitos mais episódios, assaz mais contundentes, a que prometeremos voltar se as circunstâncias o impuserem.
Acordamos, voltamos a ouvir o locutor da televisão a dar as últimas informações da manifestação nazi em Berlim. Quase não queremos acreditar que estávamos a sonhar, e apesar de nunca termos utilizado o termo em toda a nossa vida, mesmo que para identificar o regime de Salazar e muito menos o de Marcelo Caetano, por ter sido neste último que se gerou o 25 de Abril, não resistimos à tentação e gritamos a plenos pulmões: por favor «fascismo nunca mais»....
Boletim da ARAS - DEZ. 2000