sexta-feira, 13 de maio de 2011

Os radioamadores que marcaram o meu percurso

CAPÍTULO II
Os Radioamadores que jamais esquecerei

Começarei esta minha recordação por transcrever as palavras sábias de CT1SE (J. M. Correia Vitorino), em Março de 1967:
«O Radioamadorismo é poema humano, é difusão da fraternidade mundial, é o desejo de entreajuda, é exemplo vivo de progresso tecnológico espontâneo, alegre e fecundo. É ainda conquista pacífica de triunfos e dádiva de riquezas; é germe de paz e de cultura; é também - e mais do que tudo - um desejo comprovado de servir e uma capacidade ímpar para vencer com eficiência na emergência e na catástrofe. Sem horário, sem salário, sem fadiga, sem esperar outra coisa que não seja o justo reconhecimento de que se dá muito por nada e de que se está sempre pronto a dizer presente.
Cultivemos o amadorismo na rádio e em tudo o mais - no trabalho, no estudo, nos sacrifícios ... porque  amadorismo vem de amor e foi assim que, no campo da ciência, Edison, Pasteur, Curie e tantos outros, com amor pelo estudo, também sem horas, sem soldo e sem descanso, lutaram  por um mundo melhor.»(*)

CT1PK  - João Paulo Fragoso de Almeida Carvalho
Este ilustre radioamador (iniciou a sua actividade, em 1936) foi, no meu entender e de muitos com quem privei, o maior e o mais activo no mundo do Dx. Foi, durante muitos anos, o primeiro mundial em fonia e era detentor do «Top Honoris - 20». O número de diplomas, taças, medalhas e placas, em prata e ouro, em número, no seu conjunto, por nós desconhecido, mas, na última visita, que lhe fiz verifiquei que no «shack» já não havia lugar para mais distinções.
Muito embora tivesse residência na «5 de Outubro», em Lisboa, era no Cartaxo, onde mais se disponibilizava para a actividade radioamadorística, pois, como médico, o tempo que sobrava era relativamente escasso.
Nos últimos anos, convidava os radioamadores a deliciarem-se nas «termas do Cartaxo», convite a que poucos faltavam, e que ele fazia questão de a todos receber com alegria e agradecimento.
Aquando do Congresso Ibérico realizado na Corunha, era eu, nessa altura, presidente da Rede dos Emissores Portugueses, não hesitei em oferecer àquele ilustre radioamador o lugar de honra que os colegas espanhóis tinham reservado para mim. O CT1PK aceitou e agradeceu o meu convite.
Passados mais de trinta anos continuo na certeza que não poderia ser outra a minha atitude. Estava em jogo a dignidade do radioamadorismo nacional e nem sempre alguns colegas respeitavam esse princípio.

CT1AH - Eduardo Serpa Ferreira
Este nosso colega entrou para o radioamadorismo em 1928. Todos os dias era escutado e tinha de todos nós o carinho que o seu percurso impunha. Era membro do «Hold Times Club», desde 1952, e, concurso onde entrasse, obtinha sempre uma boa classificação. A demonstrá-lo estão: o 1.º lugar no Concurso da REF (1935), o 2.º lugar no Mundial P.Z.K., em telegrafia; 1.º lugar no Nacional de Fonia (1950). A Roda Nacionalista de Espanha, atribuí-lhe o Diploma «Arriba Espanha»; WAC (1932); DPCI Mérito Telegrafia e DPCI Fonia.
Um dia, já na década de 60, fui, com o meu pai, visitar um seu ex-«impedido», que com ele fez a 1.ª Guerra Mundial, em França, e residia em Valdigem, com passagem obrigatória pelo Peso da Régua. Uma vez aqui, não podia deixar de visitar o CT1AH, com quem tantas e tantas vezes tinha falado em 80 metros. Fui recebido com pompa e circunstância e depois de visitar o «shack», o nosso anfitrião, levou-me até à varanda da casa e com ar solene disse: amigo MV vou mostrar-lhe a minha antena direccional que utilizo dos 10 aos 80 metros, rivalizando com a sua que só faz 10, 15 e 20 metros. Acto contínuo, chamou: Ó Joaquim (era assim que se chamava o empregado da quinta) roda a antena para Sul. Acto contínuo surge um homem de meia idade que, pegando numa ponta de sisal, correu para Este, levando consigo o extremo da antena, por um arame que a cerca de aproximadamente 10 metros de altura, ía até ao limite do logradouro. O Eng.º Serpa Ferreira, olhou para mim com um sorriso aberto, como que a perguntar-me: então! Que tal!...
Depedi-me daquele respeitável radioamador com um «até qualquer dia», mal pensando que a próxima vez que iria à Régua seria em 1966, para o acompanhar à sua última morada. Tinha 84 anos.

CT1ZY - Manuel Gonçalves Lisboa e CT1GN - Artur Rasoilo Sacramento
A razão de os termos juntado, nesta recordação, é porque ambos tinham algo de comum. Ambos eram naturais de Ílhavo, ambos serviram na Marinha, o primeiro na Marinha de Guerra, especialista em submarinos; o segundo na Marinha Mercante, onde desempenhou as funções de Comissário; ambos tinham cegado, o primeiro em plena actividade, o segundo, alguns antes antes de falecer.
O CT1ZY, era uma presença constante em todas as bandas. Sempre que qualquer radioamador do País chamava geral, podia ter a certeza que haveria de ter sempre quem correspondesse à sua chamada. Respeitado um compasso de espera lá estava o Manuel Lisboa a responder e dar controle, com a sua voz inconfundível.
O que para nós era surpreendente é que era ele próprio que construia os seus equipamentos, no que era auxiliado pela esposa.
Um dia, numa das muitas idas a Coimbra por razões profissionais, encontrei-me, como era habitual, com o colega CT1MX que fez questão de me convidar para visitarmos o CT1ZY, na Rua da Ilha da Madeira, onde tinha a sua residência. Antes de entrar o Filipino disse-me: Nelson, você vai entrar e não diz quem é, cumprimenta-o e vai aguardar a ver se ele o reconhece, apenas pela voz.
Assim fiz. A esposa abriu a porta e eu entrei. Acto contínuo dei as boas-tardes ao CT1ZY que de imediato, sem qualquer tipo de hesitação, disse: Olha o meu grande amigo MV.
Olhei o «Zé Ygrego» que debruçado sobre a estação emissora, tendo à sua frente o microfone, nos envolvia com um sorriso de satisfação por termos a gentileza de o visitar, era assim aquele homem cujo peso da doença não lhe dava descanso, mas que não se deixava abater.
Para nós foi uma surpresa. Sabíamos do seu estado e dos seus problemas. Tivemos alguma hesitação quando nos foi feito o convite para o visitar. Não sabíamos como iríamos reagir. Tudo, no final, se mostrou de uma naturalidade surpreendente. Há imagens que jamais se separam de nós. O CT1ZY está e estará sempre no meu pensamento. Aquele nosso colega fará parte, como tantos outros que partiram, do nosso dia-a-dia de radioamador.

O CT1GN teve um precurso diferente do CT1ZY, depois de deixar a Marinha, passou a desempenhar as funções de administrador dos Serviços de Electricidade da Câmara Municipal de Ílhavo. Enquanto a sua saúde permitiu desenvolveu grande actividade, na sua terra natal, quer como desportista quer como dinamizador e criador de organizações desportivas. Aos bombeiros dedicou grande parte do seu tempo reorganizando toda a sua estrutura. O novo quartel dotado-o de material, que para a época se mostrava o mais avançado, foi, também, obra sua.
Como radioamador foi exemplar. A sua presença, todas as manhãs, era infalível. Poderia dizer-se que era o despertador das oito horas, hora a que ligava a sua estação ao som dos sinos da igreja da Palhaça, que, pausadamente, iam batendo as oito badaladas.
A sua inconfundível modulação abria num cumprimento a todos os colegas, radioescutas e escuta oficial, de uma forma simpática e afável.
Deixamos de o ouvir. Viemos a saber que uma pneumonia o levara para casa do seu filho, o médico e escritor Mário Sacramento, onde viria a falecer, inesperadamente para todos nós, dias antes de completar 78 anos.
Estamos a recordá-lo junto à barra de Aveiro, onde ele gostava de estar, a recordar os seus tempos de jovem, muitas vezes pela mão do nosso «sempre pronto», CT1MX.
(*) Fonte: Boletim n.º 2 da REP - 1967.
                                                                                                                                (Continua)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

A minha primeira experiência

Os primeiros passos no radioamadorismo
Feito o exame para a classe D, logo iniciei a actividade que passou pela utilização da estação de CT1IQ, na qualidade de 2.º operador. Havia que ganhar experiência e hábito das normas, então bem rígidas, de primeiro escutar, depois tomar nota dos colegas que estavam no QSO e, a seguir, aguardar o fim da lista para pedir permissão para «entrar». O colega que se seguia, na ordem de participação, assinalava a nossa presença e fazia os cumprimentos da praxe, bem como todos que se lhe seguiam. O último da lista, após ter dissertado sobre o assunto em apreço, passar-me-ía a palavra. Assim aconteceu: lembro-me que lá consegui atacar o microfone, não sem que as pernas me tremessem e as palavras de circunstância me faltassem, muito embora a facilidade a que a minha profissão obrigava, de bem dizer e bem escrever. O que verifiquei é que todos me acolheram com palavras de ânimo e de incentivo, ficando logo ali estabelecido, que começaria a fazer parte daquela «roda» e poderia solicitar a ajuda de quaisquer deles. Os dias foram passando e como tinha de cumprir as minhas obrigações profissionais - o tempo não se compadecia com a minha actividade de radioamador - pelo que tive de fazer um compasso de espera. Assim, todos os momentos de lazer eram dedicados ao estudo da electrónica, da telegrafia e das normas de bem conduzir um comunicado. Aqui falou mais alto a experiência de alguns colegas mais velhos que, pacientemente, me elucidavam de como programar o meu estudo e prontificaram-se a ministrar-me um curso de telegrafia. Convém esclarecer que o exame que havia feito, para a classe D, me permitia operar durante cinco anos, findos os quais, se não obtivesse aprovação para a classe C, deixaria de ser radioamador e se, entretanto, tivesse montado estação, teria de colocá-la na prateleira.
O tempo corre célere e quando «acordamos» sentimos que ou nos empenhamos seriamente ou o nosso «hobby» vai passar à história. Entretanto, a pressão que sobre mim era feita pelos radioamadores das proximidades para que começasse a adquirir o material indispensável para montar a estação era de tal modo que não me deixavam alternativa. Fui a uma das empresas que representavam a «Geloso» e lá comprei um bloco de radiofrequência para transformar o meu «musiqueiro» - um «Grundig» - que me tinha sido oferecido - num receptor de comunicações; um VFO da mesma marca, para dar início ao emissor, (uma 6L6 a atacar uma 807); dois autotransformadores (110/220) que ligados em série, a que se seguia um dobrador de tensão, dariam a alta-tensão necessária para o andar final do emissor e para as 807 que serviam de modulador. Quando coloquei as caixas de alumínio, que entretanto havia mandado fazer num serralheiro lá do burgo, em cima da secretária, verifiquei que me não sobrava espaço para montar a minha bancada de trabalho. Consultada a «cara-metade», que pacientemente ía vendo as economias a desaparecer, lá estabelecemos que, uma das assoalhadas, da vivenda que servia de morada, iria ser destinada ao «shack» - assim se chamava a dependência onde exercíamos a nossa actividade e, paralelamente, a «bancada» onde montavamos os nossos aparelhos e acessórios - constituindo, a partir desse dia, o meu reduto exclusivo. Quando fiz o anúncio de que tinha adquirido o material necessário para montar a estação e que iria dar início aos «trabalhos» no dia seguinte, estava longe de adivinhar o que tal anúncio iria originar. Cerca das 10 horas (hora para mim idêntica às 2 para qualquer mortal, uma vez que o meu horário no jornal era das 21 às 2 - o jornal saía para a distribuição às 4, não sem que antes tivesse de ser impresso -, sou acordado pela minha mulher, anunciando-me que alguns colegas já se encontravam no «shack» e requeriam a minha presença. Depois da «lavagem de estrada» e ainda meio ensonado, entro naquela dependência, onde já se encontravam três colegas que procediam aos preparativos para a montagem da estação. Eram eles: CT1GE, dr. Oliveira Alves (médico militar); CT1OZ, técnico de electrónica numa das maiores empresas do ramo na cidade do Porto; CT1EE, dr. Fernando Pinheiro, um solteirão que vivia lá para os lados da Constituição, com a mãe e uma tia, e a quem chamavam o médico dos pobres, aliás, por mim confirmado; CT1UK, o «arranca dentes», como carinhosamente era denominado. Convém esclarecer que o CT1IQ, não podia estar presente, uma vez que o horário da secretaria do jornal era das 10 as 18 horas. A azáfama foi tremenda, os berbequins, as chaves de fenda e o material adquirido eram manejados como se de uma operação cirúrgica se tratasse. A hora de almoço passou sem que quaisquer de nós se apercebesse, mau grado a constante interpelação da XYL que desesperava, uma vez que o almoço já não podia esperar muito mais. Cerca das 16 horas, o trabalho estava terminado e tudo ligado (a antena já tinha sido montada uns meses antes) deu-se início aos testes. Tudo estava conforme determinam os cânones. O primeiro QSO não se fez esperar. O CT1GE, no comando das operações, solicitava controle de emissão e modulação aos colegas que iam aparecendo nos diversos pontos do País. Finda a função e na presença de todos fiz o meu primeiro contacto. Foi meu «padrinho» o CT1PK, dr. Fragoso de Almeida, que desde o Cartaxo, me convidou para, numa próxima oportunidade, oficializar o acto, nas «termas» onde a «água das pedras do lagar», da sua propriedade, eram um autêntico nectar dos deuses.
Terminada a «função» festejamos, como não podia deixar de ser, após o que, todos partiram com a promessa de nesse dia à noite apareceria nos 10 metros, na roda habitual, a que o CT1EE, chamava de «QSO de esquina», imprópria para mim, segundo a sua opinião, e incentivando a ir para o DX, apelando à minha idade.
A uns e outros tentei dar satisfação, sendo que o Dx era mais provável uma vez que quando chegava a casa, depois das 3 horas, o País dormia. Nem todos... valha a verdade, porque havia um número de radioamadores que estava sempre atento às «figurinhas» e que, conhecedores dos horários em que estas apareciam, não dispensavam juntar mais um indicativo ou mais um país ao WPX ou ao DXCC. Interesses que hoje, apesar do número de radioamadores ter atingido os 5000, passaram a ser considerados ultrapassados, para a esmagadora maioria.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A rivalidade Norte-Sul não é recente nem exclusiva do futebol

«Lisboa é a capital e o resto é paisagem»
Era este o «slogan» que durante muitos anos se ouvia, quando os lisboetas queriam, muitas vezes sem espírito de malidicência, menorizar as gentes e as terras do Norte do País.
Hoje, felizmente, tudo mudou e começam a ser muito raras as pessoas que se recordam ou utilizam esta frase. Mas nem sempre foi assim e, não nos dispensamos a dar um exemplo bem esclarecedor, no campo do radioamadorismo.
No após-segunda guerra e no intuíto de alargar a sua área de influência, o que ainda hoje acontece, a direcção da Rede dos Emissores Portugueses (associação a que todos os radioamadores eram obrigados a ser sócios sob pena de não poderem praticar a modalidade) decidiu aceitar o pedido de alguns radioamadores da cidade do Porto e não só, para ali estabelecerem uma delegação, no intuíto de em «su sítio», trocarem ideias e tomarem as atitudes de conjunto mais convenientes na defesa da modalidade e obterem as benesses que eram um exclusivo dos radioamadores da capital.
A sede, nos Finianos, ao lado da Câmara Municipal, começou a ser o palco de uma organização, que mercê do entusiasmo - os aderentes contava-se pelo número de radioamadores daquela região -  que as gentes do Norte sempre põem nas suas iniciativas, com relevância no poder reivindicativo, que o número de associados dava corpo.
Era evidente que a união e comunhão de interesses, o trabalho desenvolvido e os resultados obtidos, começaram a fazer mossa na urbe de radioamadores da capital que entretidos em discussões estéreis e mais viradas para o foro pessoal em detrimento do colectivo, começaram a ver o terreno a fugir-lhes e a sua pseudo autoridade a diluir-se face à investida da delegação nortenha que exigia trabalho e acção na luta pelo lugar que lhes competia, por direito, junto das autoridades que superientendiam na modalidade.
As divergências começaram a vir ao de cima, a falta de resposta do poder central começou a causar algum desconforto e a rotura começava a vislumbrar-se.
O inevitável aconteceu... Por ordem da mesma direcção que havia criado a delegação veio a intimação ao seu encerramento.
Alguns radioamadores ainda tentaram resistir mas, era facto consumado. Nada se poderia fazer. O poder estava do lado dos colegas da capital.
Durante décadas o Norte e o Sul estiveram divididos, uma divisão que se reflectia no alheamento completo. Só a obrigatoriedade de ser sócio da REP mantinha uma aparente união, que só foi evidente após o decreto que viabilizou a liberdade de associação.
O Porto, pela mão do seu mais prestigiado radioamador, criava a Associação dos Radioamadores Portugueses, lutando, em campo aberto, pela representação nacional, o que só não foi obtida por intervenção, de um outro não menos influente radioamador de Lisboa, que se disponibilizou para defender os interesses da REP, deslocando-se pessoalmente à sede da organização internacional, o que aconteceu pela primeira vez, em quase 50 anos de existência como associação nacional.
A título de simples apontamento, lamentamos que aquele prestigiado radioamador que durante mais de duas décadas foi o «salvador» da REP, evitando a sua extinção, por mais que uma vez, seja hoje vítima de meia dúzia de recém-chegados àquela instituição, levando-o, pelo menos nas aparências, ao alheamento da obra que conseguiu fazer, a expensas suas e, algumas vezes, a seu pedido, de alguns colegas e amigos.
O mundo é muitas vezes ingrato para aqueles que conseguem fazer obra.
A título meramente informativo, para que não se façam juízos errados de valor, posso adiantar que muito embora reconheça o valor da obra feita, porque essa não se pode esconder, não me revejo nela, muito pelo contrário, tendo estado quase sempre do outro lado da barricada, o que não é de estranhar, na medida em que estando no radioamadorismo há mais de meio século, senti na pele, primeiro a obrigatoriedade e a prepotência e depois a falta de iniciativa e a obstrução constante a quem lutava para tornar a actividade mais democrática e mais prestigiada.
A «sexta-feira santa» é o exemplo acabado de como é o fim daqueles que um dia ousaram fazer obra...
  

O Radioamadorismo como fonte de conhecimento

O conhecimento e a sua aplicação prática 
cria boas amizades e popularidade

Quando entrei para o radioamadorismo a situação económica das famílias não era muito favorável e, com honrosas exepções, os ordenados eram, na generalidade baixos e exigiam muito esforço e dedicação.
No diário, onde trabalhei, os ordenados variavam entre os 400$00 e os 3000$00. Isto para dizer que o dinheiro não abundava nos nossos bolsos e isso obrigava a um esforço grande para adquirir os conhecimentos necessários para contruir os indispensáveis aparelhos, na maioria dos casos, improvisando e investigando a forma mais económica de atingir o fim em vista.
Para um maior conhecimento da realidade bastará dizer que a primeira estação comercial que tive - DX60, HR10 e HG10 - (1964), veio do Estados Unidos, em kit, e custou 12.500$00 ( o equivalente a cerca de cinco meses do meu ordenado da altura). Hoje, quando ouço dizer que os transceptores são caros, fico a pensar que havia razão para sermos, naquela altura, pouco mais de 200 e, agora (20011) termos ultrapassado a casa dos 5000. Aliás, a imagem da estação do CT1IQ e a sua descrição, são mais que elucidativas. Mas, vem isto a propósito de uma passagem que marcou profundamente a amizade e o respeito que, em Ermesinde, vila onde tinha residência, as pessoas nutriam por mim e o reflexo disso era evidente pelo carinho e atenção que dispensavam ao meu agregado familiar.
Naquele tempo, como hoje, o futebol era o tema de todas as conversas de café e de rua. Uns defendiam o clube da terra, outros o da região, que o mesmo é dizer que uns defendiam o Ermesinde e outros o F.C. do Porto (perdoem-me alguma falta neste sector uma vez que nunca fui muito ligado a esta modalidade). Muito embora a televisão já fosse uma realidade, ainda a preto e branco, o futebol não era, como hoje, o tema central das suas emissões. Assim, não havia transmissões em directo dos jogos o que levava as pessoas a invejarem o que se passava no país vizinho, onde, todos os domingos, se transmitia o jogo mais importante da jornada.
Isto levou a que um grupo de amigos, em conversa de café, me lançasse o repto: «Sr. Ferreira Alves (era assim que me tratavam) o senhor que fala com todo o mundo e tem aquela enorme antena no telhado, não será capaz de captar a emissão da televisão espanhola para que possamos ver o futebol?
Ali mesmo, ficou o meu compromisso solene de ir estudar o assunto e dos resultados obtidos daria conhecimento em breve.
Chegado a casa, liguei para um jovem colega espanhol,  EA1KO, Ramon Carrasco, que havia estado em minha casa por diversas vezes, pedindo-lhe que indagasse e me elucidasse sobre os canais da TVE e que mandasse a localização dos repetidores, especialmente os que estavam mais próximos da fronteira.
A resposta não se fez esperar e, dois dias depois, de posse dos elementos indispensáveis, acabei por concluir que o repetidor mais acessível seria o do monte de Santa Tecla, junto à foz do Rio Minho.
A experiência que tinha de levar a cabo só podia ser feita num dia de folga uma vez que o horário das emissões de televisão portuguesa eram coincidentes com a minha saída de casa para o jornal (20 horas).
No dia possível, durante a tarde, fiz um cabo para ligar a PL259, com que terminava o cabo da antena de emissão para a ligar à entrada de antena do televisor, um aparelho de madeira envernizada de razoáveis dimensões, onde um cinescópio sobressaía em oval, com alguma desproporção em relação ao conjunto.
Mal a emissão começou, liguei o cabo e sintonizei o canal IV, de Espanha, fazendo rodar a antena para que o elemento irradiante ficasse na direcção previamente calculada. A experiência juntou a família na sala onde estava o televisor e todos, com entusiasmo contagiante, batendo palmas, viram as imagens da televisão de Espanha, ainda que com algumas pequenas interrupções, o que era natural, dada a discrepância que existia entre a frequência para que estava cortada a antena e a do canal televisivo. Para os mais entendidos aí vão os dados de que dispunha para o cálculo da antena que havia de ser construída, com a certeza, de que face aos resultados obtidos, seria possível ver, com alguma qualidade, a emissão da TVE: canal IV: largura de banda, 61-68; portadora de vídeo, 62,25; portadora de som, 67,75; frequência do oscilador, 101,15, e a banda I. Estes dados levam-nos a uma antena, cujo elemento alimentado com a fita anphenol de 300 ohmios, teria qualquer coisa como 4,40 metros. Projectamos uma antena de quatro elementos: dois directores, um irradiante e um reflector. Compramos os tubos de alumínio, num estabelecimento da especialidade, no centro da cidade do Porto, e demos início dos trabalhos.
O anexo, nas traseiras da vivenda, transformou-se rapidamente numa oficina de construção de antenas, com os aparelhos indispensáveis para testar a eficiência no ajuste dos elementos.
Escusado será dizer que os meus filhos, ainda de tenra idade, se encarregaram de dar largas ao seu entusiasmo, fazendo saber, a quem nos conhecia, a «invenção» do pai, com o orgulho com que sempre, e ainda hoje, contagiam os seus mais próximos colaboradores e amigos.
O entusiasmo foi de tal modo mobilizador que tive de pedir para me deixarem em paz, condição indispensável para levar a cabo a construção da antena, no que fui ajudado, na parte mecânica, pelo meu indispensável colaborador - «Zé Marceneiro» - e um  jovem estudante, filho de um radioamador que não cheguei a conhecer por ter falecido, antes de ter chegado àquela vila. Entretanto, pedi ao amigo Moreira, proprietário de uma fábrica de acessórios para a indústria textil, que me construisse, segundo o desenho que lhe forneci, uma «máquina» para dobrar o tubo de alumínio para fazer o «trombone» (elemento onde ía ligar a fita que viria ao televisor), ao que ele prontamente deu resposta cabal. O pedido foi feito num dia à noite e no dia seguinte, à hora de almoço, a «máquina» estava a ser entregue.
Construída a antena e um pequeno amplificador de sinal, colocada num extremo do telhado, bem alta, estendido a fita amphenol até ao televisor, o «milagre» deu-se. Estavamos a ver a TVE com um sinal que fazia inveja à televisão portuguesa. No domingo que se lhe seguiu a sala encheu-se de amigos e conhecidos que assistiram, com entusiamo, ao jogo de futebol da I liga espanhola.
A segunda antena foi montada em casa do homem da ideia, o mais entusiasta e mais persistente, antes, durante e depois da realização do evento.
A partir daqui e como o tempo disponível não era muito aconselhei as pessoas interessadas a deslocarem-se a Vigo onde poderiam adquirir, por preço razoável, as antenas para o canal IV, dispensando-me dos trabalhos de construção. Algum tempo depois, fui informado, que um estabelecimento na cidade do Porto já tinha à venda antenas apropriadas para aquele canal da TVE.
Assim terminou mais uma aventura das muitas que os radioamadores deste País realizaram nas cidades, vilas ou aldeias onde residiam e tinham as suas estações instaladas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O segundo «barrete» - 1963

Uma viagem inesperada

Todos os dias, à noite, se encontravam, em dez metros, uns quantos radioamadores do Porto e arredores. Como sempre, a conversa versava sobre os últimos acontecimentos radioamadorísticos e, cada um, em sua vez, fazia o comentário, segundo os seus conhecimentos e as suas experiências da matéria em apreço. Não raras vezes, surgiam os «dichotes» mais humorísticos e, enquanto uns se deliciavam com a intervenção, outros - normalmente os atingidos - não apreciando o dito chistoso, abriam a discussão, sem que, no final, restasse qualquer animosidade. Eram assim os radioamadores daquele tempo e daquela região.
Ora, numa dessas noites, no período de mais acesa polémica, eis que surge, a seu tempo, como mandavam as regras, um pedido de entrada no QSO. Era um jovem radioamador, de Matosinhos, filho de um nosso embaixador num país da América do Sul, sempre bem disposto e que, por isso, era sempre muito acarinhado.
Chegada a sua vez, eis que o nosso prezado colega, abre o microfone e começa a sua dissertação mas, conforme ía falando ía subindo de frequência, no que a todos preocupou, aguardando o fim da sua intervenção para lhe dar conta que o VFO não tinha estabilidade, problema que ele tinha de solucionar rapidamente, para não ultrapassar os limites da banda estabelecido pela DSR, sob pena de ser admoestado ou mesmo «multado» pela DSR (entidade fiscalizadora), que nessa época tinha mão pesada, pois o seu director, o Eng.º Brás Machado, não admitia quaisquer falhas ao Regulamento. É preciso dizer que também nessa época a fiscalização, para além de escutar os radioamadores, pouco ou nada tinha com que «se entreter». Mas, como diz o ditado popular, «não há fome que não traga fartura», e, assim, hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 60, não se faz escuta aos radioamadores e, se a prática rigorosa daquela altura fosse transportada para os dias de hoje, certamente não seríamos mais do que umas poucas centenas.

Uma homenagem merecida

CT1IQ – Adélio Ferreira – Ermesinde 1968

Desde o início deste conjunto de memórias que recordamos o meu duplo colega (no radioamadorismo e no jornal onde ambos trabalhamos) e o seu incentivo para que me tornasse radioamador.
Queremos acrescentar algo mais que recorde a sua intensa actividade, o seu empenho na montagem dos equipamentos que utilizava, o cuidado que sempre teve no trato com os colegas. Infelizmente, um acidente brutal, havia de o vitimar irremediavelmente, ainda muito jovem.
Ao transcrever o que o Boletim da R.E.P. publicou a seu respeito, mostrando a estação que ele tanto estimava, deixamos também a nossa recordação e a nossa saudade.
Obrigado Adélio Ferreira

Fonte: Boletim da R.E.P. - N.º 1 - Jan.Fev. 1968



domingo, 8 de maio de 2011

Em 75 Anos nada mudou na forma de estar no radioamadorismo

AMADORISMO
A época dificil que atravessamos, deve obrigar, mais do que nunca, o amador a pensar reflectidamente nos seus deveres e responsabilidades. Não podemos imaginar, pelo facto de possuirmos indicativo e licença para emitir, que nos foram conferidos todos os direitos possíveis e imagináveis. Se pagamos, com pontualidade a nossa taxa ao Estado, não quer dizer que adquirimos o privilégio de abusar do éther... Aos direitos que nos são reconhecidos correspondem deveres, que garantem esse reconhecimento. O Estado, que tem o privilégio das comunicações cedeu-nos uma parcela da sua soberania, na certeza que usaremos dela segundo as normas estabelecidas no Estatuto do Radioelectricidade. As nossas estações, que são postos de amador e que apenas podem realizar comunicações de natureza bem definida, não são estações telégrafo-postais, nem cabinas telefónicas. Não são pequenos postos de radiodifusão, nem estações comerciais de rádio. Pensar o contrário ou agir, esquecendo estes princípios, é caminhar para as maiores dificuldades, não somente prejudicando o nosso posto, como, também, todos os amadores. O conceito público acerca do amador forma-se pela escuta das nossas comunicações. Assim se avalia o grau da nossa disciplina, o valor da nossa técnica. Por este modo se forma uma opinião acerca da nossa utilidade. O amador tem, portanto, de ser cauteloso na sua técnica, conseguindo que o seu emissor marque pela sua afinação cuidada. Tem de ser cauteloso no seu modo de trabalhar, seguindo os preceitos em uso universal, sem fantasias prejudiciais. Tem de ser cauteloso na sua linguagem de forma a manter os créditos do amador, tantas vezes digno das mais altas distinções. Para merecer a concessão, que lhe foi dada pelo Estado, o amador tem de ser patriota. Não se pede, evidentemente, a todos para ingressarem nas organizações especiais, previstas como elementos de defesa da integridade nacional. Essas adesões têm de ser voluntárias, nunca forçadas. Mas deve-se reconhecer ao Estado o legítimo direito de defesa, averiguando se realmente somos dignos  de utilizar a concessão valiosa que nos foi dada. Nenhum amador deixará de concorrer para que a opinião, que possam ter a nosso respeito as entidades oficiais, seja aquela que se possa formar acerca de um corpo disciplinado, conhecedor dos seus deveres e cumpridor das suas obrigações. Antes de falar ao microfone ou antes de pegar no manipulador nenhum amador deve deixar de pensar, que uma acção irreflectida pode comprometer todos os seus colegas, prejudicar todos os seus amigos, inutilizar o futuro do amadorismo português. Parece, também, que haveria vantagem em ocuparmos, quanto antes, com maior intensidade as zonas que nos foram distribuídas. As frequências de amador devem ser, também, criteriosamente utilizadas. Teimar em usar para comunicações locais frequências impróprias e causar um qrm inútil, que a ninguém aproveita. Que ao menos nos aproveite a noção que as frequências usadas para as comunicações locais são muito mais económicas em material e aparelhagem e estaremos cumprindo a nossa missão de amadores. Não é, portanto, tão simples quanto parece ser amador, na verdadeira significação da palavra, - exige critério e reflexão. Ouso pensar que ninguém deixará de ter essas qualidades se quiser, sem risco, usar um indicativo.

José Penha Garcia, CT1BY
    Presidente da R.E.P.

Transcrito do Boletim n.º 35, de Março de 1937.