terça-feira, 10 de maio de 2011

O Radioamadorismo como fonte de conhecimento

O conhecimento e a sua aplicação prática 
cria boas amizades e popularidade

Quando entrei para o radioamadorismo a situação económica das famílias não era muito favorável e, com honrosas exepções, os ordenados eram, na generalidade baixos e exigiam muito esforço e dedicação.
No diário, onde trabalhei, os ordenados variavam entre os 400$00 e os 3000$00. Isto para dizer que o dinheiro não abundava nos nossos bolsos e isso obrigava a um esforço grande para adquirir os conhecimentos necessários para contruir os indispensáveis aparelhos, na maioria dos casos, improvisando e investigando a forma mais económica de atingir o fim em vista.
Para um maior conhecimento da realidade bastará dizer que a primeira estação comercial que tive - DX60, HR10 e HG10 - (1964), veio do Estados Unidos, em kit, e custou 12.500$00 ( o equivalente a cerca de cinco meses do meu ordenado da altura). Hoje, quando ouço dizer que os transceptores são caros, fico a pensar que havia razão para sermos, naquela altura, pouco mais de 200 e, agora (20011) termos ultrapassado a casa dos 5000. Aliás, a imagem da estação do CT1IQ e a sua descrição, são mais que elucidativas. Mas, vem isto a propósito de uma passagem que marcou profundamente a amizade e o respeito que, em Ermesinde, vila onde tinha residência, as pessoas nutriam por mim e o reflexo disso era evidente pelo carinho e atenção que dispensavam ao meu agregado familiar.
Naquele tempo, como hoje, o futebol era o tema de todas as conversas de café e de rua. Uns defendiam o clube da terra, outros o da região, que o mesmo é dizer que uns defendiam o Ermesinde e outros o F.C. do Porto (perdoem-me alguma falta neste sector uma vez que nunca fui muito ligado a esta modalidade). Muito embora a televisão já fosse uma realidade, ainda a preto e branco, o futebol não era, como hoje, o tema central das suas emissões. Assim, não havia transmissões em directo dos jogos o que levava as pessoas a invejarem o que se passava no país vizinho, onde, todos os domingos, se transmitia o jogo mais importante da jornada.
Isto levou a que um grupo de amigos, em conversa de café, me lançasse o repto: «Sr. Ferreira Alves (era assim que me tratavam) o senhor que fala com todo o mundo e tem aquela enorme antena no telhado, não será capaz de captar a emissão da televisão espanhola para que possamos ver o futebol?
Ali mesmo, ficou o meu compromisso solene de ir estudar o assunto e dos resultados obtidos daria conhecimento em breve.
Chegado a casa, liguei para um jovem colega espanhol,  EA1KO, Ramon Carrasco, que havia estado em minha casa por diversas vezes, pedindo-lhe que indagasse e me elucidasse sobre os canais da TVE e que mandasse a localização dos repetidores, especialmente os que estavam mais próximos da fronteira.
A resposta não se fez esperar e, dois dias depois, de posse dos elementos indispensáveis, acabei por concluir que o repetidor mais acessível seria o do monte de Santa Tecla, junto à foz do Rio Minho.
A experiência que tinha de levar a cabo só podia ser feita num dia de folga uma vez que o horário das emissões de televisão portuguesa eram coincidentes com a minha saída de casa para o jornal (20 horas).
No dia possível, durante a tarde, fiz um cabo para ligar a PL259, com que terminava o cabo da antena de emissão para a ligar à entrada de antena do televisor, um aparelho de madeira envernizada de razoáveis dimensões, onde um cinescópio sobressaía em oval, com alguma desproporção em relação ao conjunto.
Mal a emissão começou, liguei o cabo e sintonizei o canal IV, de Espanha, fazendo rodar a antena para que o elemento irradiante ficasse na direcção previamente calculada. A experiência juntou a família na sala onde estava o televisor e todos, com entusiasmo contagiante, batendo palmas, viram as imagens da televisão de Espanha, ainda que com algumas pequenas interrupções, o que era natural, dada a discrepância que existia entre a frequência para que estava cortada a antena e a do canal televisivo. Para os mais entendidos aí vão os dados de que dispunha para o cálculo da antena que havia de ser construída, com a certeza, de que face aos resultados obtidos, seria possível ver, com alguma qualidade, a emissão da TVE: canal IV: largura de banda, 61-68; portadora de vídeo, 62,25; portadora de som, 67,75; frequência do oscilador, 101,15, e a banda I. Estes dados levam-nos a uma antena, cujo elemento alimentado com a fita anphenol de 300 ohmios, teria qualquer coisa como 4,40 metros. Projectamos uma antena de quatro elementos: dois directores, um irradiante e um reflector. Compramos os tubos de alumínio, num estabelecimento da especialidade, no centro da cidade do Porto, e demos início dos trabalhos.
O anexo, nas traseiras da vivenda, transformou-se rapidamente numa oficina de construção de antenas, com os aparelhos indispensáveis para testar a eficiência no ajuste dos elementos.
Escusado será dizer que os meus filhos, ainda de tenra idade, se encarregaram de dar largas ao seu entusiasmo, fazendo saber, a quem nos conhecia, a «invenção» do pai, com o orgulho com que sempre, e ainda hoje, contagiam os seus mais próximos colaboradores e amigos.
O entusiasmo foi de tal modo mobilizador que tive de pedir para me deixarem em paz, condição indispensável para levar a cabo a construção da antena, no que fui ajudado, na parte mecânica, pelo meu indispensável colaborador - «Zé Marceneiro» - e um  jovem estudante, filho de um radioamador que não cheguei a conhecer por ter falecido, antes de ter chegado àquela vila. Entretanto, pedi ao amigo Moreira, proprietário de uma fábrica de acessórios para a indústria textil, que me construisse, segundo o desenho que lhe forneci, uma «máquina» para dobrar o tubo de alumínio para fazer o «trombone» (elemento onde ía ligar a fita que viria ao televisor), ao que ele prontamente deu resposta cabal. O pedido foi feito num dia à noite e no dia seguinte, à hora de almoço, a «máquina» estava a ser entregue.
Construída a antena e um pequeno amplificador de sinal, colocada num extremo do telhado, bem alta, estendido a fita amphenol até ao televisor, o «milagre» deu-se. Estavamos a ver a TVE com um sinal que fazia inveja à televisão portuguesa. No domingo que se lhe seguiu a sala encheu-se de amigos e conhecidos que assistiram, com entusiamo, ao jogo de futebol da I liga espanhola.
A segunda antena foi montada em casa do homem da ideia, o mais entusiasta e mais persistente, antes, durante e depois da realização do evento.
A partir daqui e como o tempo disponível não era muito aconselhei as pessoas interessadas a deslocarem-se a Vigo onde poderiam adquirir, por preço razoável, as antenas para o canal IV, dispensando-me dos trabalhos de construção. Algum tempo depois, fui informado, que um estabelecimento na cidade do Porto já tinha à venda antenas apropriadas para aquele canal da TVE.
Assim terminou mais uma aventura das muitas que os radioamadores deste País realizaram nas cidades, vilas ou aldeias onde residiam e tinham as suas estações instaladas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O segundo «barrete» - 1963

Uma viagem inesperada

Todos os dias, à noite, se encontravam, em dez metros, uns quantos radioamadores do Porto e arredores. Como sempre, a conversa versava sobre os últimos acontecimentos radioamadorísticos e, cada um, em sua vez, fazia o comentário, segundo os seus conhecimentos e as suas experiências da matéria em apreço. Não raras vezes, surgiam os «dichotes» mais humorísticos e, enquanto uns se deliciavam com a intervenção, outros - normalmente os atingidos - não apreciando o dito chistoso, abriam a discussão, sem que, no final, restasse qualquer animosidade. Eram assim os radioamadores daquele tempo e daquela região.
Ora, numa dessas noites, no período de mais acesa polémica, eis que surge, a seu tempo, como mandavam as regras, um pedido de entrada no QSO. Era um jovem radioamador, de Matosinhos, filho de um nosso embaixador num país da América do Sul, sempre bem disposto e que, por isso, era sempre muito acarinhado.
Chegada a sua vez, eis que o nosso prezado colega, abre o microfone e começa a sua dissertação mas, conforme ía falando ía subindo de frequência, no que a todos preocupou, aguardando o fim da sua intervenção para lhe dar conta que o VFO não tinha estabilidade, problema que ele tinha de solucionar rapidamente, para não ultrapassar os limites da banda estabelecido pela DSR, sob pena de ser admoestado ou mesmo «multado» pela DSR (entidade fiscalizadora), que nessa época tinha mão pesada, pois o seu director, o Eng.º Brás Machado, não admitia quaisquer falhas ao Regulamento. É preciso dizer que também nessa época a fiscalização, para além de escutar os radioamadores, pouco ou nada tinha com que «se entreter». Mas, como diz o ditado popular, «não há fome que não traga fartura», e, assim, hoje, ao contrário do que acontecia nos anos 60, não se faz escuta aos radioamadores e, se a prática rigorosa daquela altura fosse transportada para os dias de hoje, certamente não seríamos mais do que umas poucas centenas.

Uma homenagem merecida

CT1IQ – Adélio Ferreira – Ermesinde 1968

Desde o início deste conjunto de memórias que recordamos o meu duplo colega (no radioamadorismo e no jornal onde ambos trabalhamos) e o seu incentivo para que me tornasse radioamador.
Queremos acrescentar algo mais que recorde a sua intensa actividade, o seu empenho na montagem dos equipamentos que utilizava, o cuidado que sempre teve no trato com os colegas. Infelizmente, um acidente brutal, havia de o vitimar irremediavelmente, ainda muito jovem.
Ao transcrever o que o Boletim da R.E.P. publicou a seu respeito, mostrando a estação que ele tanto estimava, deixamos também a nossa recordação e a nossa saudade.
Obrigado Adélio Ferreira

Fonte: Boletim da R.E.P. - N.º 1 - Jan.Fev. 1968



domingo, 8 de maio de 2011

Em 75 Anos nada mudou na forma de estar no radioamadorismo

AMADORISMO
A época dificil que atravessamos, deve obrigar, mais do que nunca, o amador a pensar reflectidamente nos seus deveres e responsabilidades. Não podemos imaginar, pelo facto de possuirmos indicativo e licença para emitir, que nos foram conferidos todos os direitos possíveis e imagináveis. Se pagamos, com pontualidade a nossa taxa ao Estado, não quer dizer que adquirimos o privilégio de abusar do éther... Aos direitos que nos são reconhecidos correspondem deveres, que garantem esse reconhecimento. O Estado, que tem o privilégio das comunicações cedeu-nos uma parcela da sua soberania, na certeza que usaremos dela segundo as normas estabelecidas no Estatuto do Radioelectricidade. As nossas estações, que são postos de amador e que apenas podem realizar comunicações de natureza bem definida, não são estações telégrafo-postais, nem cabinas telefónicas. Não são pequenos postos de radiodifusão, nem estações comerciais de rádio. Pensar o contrário ou agir, esquecendo estes princípios, é caminhar para as maiores dificuldades, não somente prejudicando o nosso posto, como, também, todos os amadores. O conceito público acerca do amador forma-se pela escuta das nossas comunicações. Assim se avalia o grau da nossa disciplina, o valor da nossa técnica. Por este modo se forma uma opinião acerca da nossa utilidade. O amador tem, portanto, de ser cauteloso na sua técnica, conseguindo que o seu emissor marque pela sua afinação cuidada. Tem de ser cauteloso no seu modo de trabalhar, seguindo os preceitos em uso universal, sem fantasias prejudiciais. Tem de ser cauteloso na sua linguagem de forma a manter os créditos do amador, tantas vezes digno das mais altas distinções. Para merecer a concessão, que lhe foi dada pelo Estado, o amador tem de ser patriota. Não se pede, evidentemente, a todos para ingressarem nas organizações especiais, previstas como elementos de defesa da integridade nacional. Essas adesões têm de ser voluntárias, nunca forçadas. Mas deve-se reconhecer ao Estado o legítimo direito de defesa, averiguando se realmente somos dignos  de utilizar a concessão valiosa que nos foi dada. Nenhum amador deixará de concorrer para que a opinião, que possam ter a nosso respeito as entidades oficiais, seja aquela que se possa formar acerca de um corpo disciplinado, conhecedor dos seus deveres e cumpridor das suas obrigações. Antes de falar ao microfone ou antes de pegar no manipulador nenhum amador deve deixar de pensar, que uma acção irreflectida pode comprometer todos os seus colegas, prejudicar todos os seus amigos, inutilizar o futuro do amadorismo português. Parece, também, que haveria vantagem em ocuparmos, quanto antes, com maior intensidade as zonas que nos foram distribuídas. As frequências de amador devem ser, também, criteriosamente utilizadas. Teimar em usar para comunicações locais frequências impróprias e causar um qrm inútil, que a ninguém aproveita. Que ao menos nos aproveite a noção que as frequências usadas para as comunicações locais são muito mais económicas em material e aparelhagem e estaremos cumprindo a nossa missão de amadores. Não é, portanto, tão simples quanto parece ser amador, na verdadeira significação da palavra, - exige critério e reflexão. Ouso pensar que ninguém deixará de ter essas qualidades se quiser, sem risco, usar um indicativo.

José Penha Garcia, CT1BY
    Presidente da R.E.P.

Transcrito do Boletim n.º 35, de Março de 1937.

O primeiro «barrete»

Quando recebi o estudo da «Cubical Quad» dei disso conhecimento a alguns radioamadores que constituíam o qso habitual dos 80 metros. Todos se congratularam pelo sucedido e grande parte deles me pediram para lhes enviar, ou entregar pessoalmente, cópias desse estudo, a que se seguiram algumas visitas a minha casa, para apreciarem o aparato da antena no cimo do telhado e verificarem o seu comportamento. É claro que tudo isto me havia de envolver na construção de outra, tendo, depois, conseguido que um colega de Vila do Conde se encarregasse de satisfazer os pedidos que de todos os lados começaram a surgir.
Mas voltemos ao tema: Aquando do QSO referido logo surgiu o CT1LD que, muito convicente, me disse ter na sua posse um esquema que duplicaria a eficácia da antena, como tinha comprovado em outras ocasiões e que a estava a usar na antena que utilizava para fazer DX. Logo surgiram outros colegas que corroboraram as afirmações do CT1LD, alguns dos quais afirmavam estar a utilizar o dito aparelho, fruto do esquema cedido por aquele colega, e a que davam o nome de «propagaciómetro».
Depois de todas as provas e da sua dissertação tão convincente, não resisti à tentação de lhe pedir que me enviasse o dito esquema para melhorar o meu sistema irradiante.
No dia seguinte, pelo correio, recebi um «gordo» envelope, que numa folha A4 descrevia o dito cujo. Nada menos nada mais que o desenho da quadrangular cúbica no cimo do telhado e um indivíduo, cá de baixo, com um fole, soprava para a antena. Tudo descrito ao pormenor, aconselhando-me a divulgar o dito aparelho, especialmente aos colegas americanos, a quem eu dispensava a maior parte do meu tempo de rádio em detrimento dos colegas portugueses.
Admirei a paciência do colega CT1LD e achei tal piada ao «barrete» que ainda hoje conservo a folha com o «esquema».
Nota: Foi a defesa que fiz deste prestável radioamador e a sua pronta disponibilidade para ajudar todos os radioamadores a passarem os equipamentos que mandavam vir dos Estados Unidos sem intervenção da Alfândega servindo-se naturalmente da sua profissão para o fazer, que me levou a presidente da Rede dos Emissores Portugueses, num  primeiro mandato, visto que, no segundo, competi com o meu homónimo Nelson Soromenho, tendo sido eleito por voto directo e secreto, realizado na Casa do Minho.
O que na altura disse e repito é que nos competia analisar o radioamador e não o sub-director da polícia.

O Início de uma realização no radioamadorismo

                                                               Capítulo I
O Dia mais feliz da minha vida de radioamador
Muito embora a minha experiência tivesse sido iniciada a «bordo» da estação do CT1IQ, estava muito longe de abarcar todo o mundo de objectivos que se me colocavam conforme ía avançando na leitura das revistas e livros que o mercado me disponibilizava e descobria, umas vezes por indicação de colegas mais experientes outras pela investigação que fazia nos contactos com colegas americanos -  para mim e nos longos anos de actividade, os mais indicados pela incrível facilidade de aquisição de componentes quer pelo preço quer pela diversidade - foi assim que fui caminhando na construção de novos equipamentos e antenas, aproveitando a facilidade das minhas constantes viagens por alguns países onde sempre aproveitava algum tempo livre para visitar estabelecimentos de componentes de electrónica, com especial incidência nos que se dedicavam quase em exclusivo ao Radioamadorismo. Não raras vezes aqui encontrei colegas com quem travei conhecimento e que daí em diante passaram a fazer parte do meu dia-a-dia de contactos. Seria fastidioso para quem tem a paciência de ler estas minhas memórias suportar a longa lista de nomes e indicativos que fui coleccionando, principalmente nos primeiros dez anos de actividade.
Decorria o ano de 1963 quando tive conhecimento que na vila, no interior de Angola, onde o meu irmão era Administrador de Concelho existia um radioamador. O meu posto emissor (DX60, HR10 e um HG10 da Heathkit), embora de razoável qualidade, para a época, não se mostrava suficiente para atingir as longínquas terras da África Equatorial. A luta começou, sem tréguas, tinha de atingir o Golungo Alto (assim se chamava a povoação onde o meu irmão se encontrava) sem demora. Depois de ter experimentado todo o tipo de antenas que os colegas mais experientes me aconselhavam, sem sucesso, eis que uma noite, consegui falar com o W6SAI, William Orr, por conselho do eng.º Maxwel, à altura a desempenhar funções na NASA. A conversa não foi longa, o suficiente para lhe dizer das minhas intenções e das dificuldades com que estava a deparar (esquecia-me de esclarecer, para quem não viveu aquela época, que aquele prestigiado radioamador era considerado um dos maiores investigadores na área das antenas e, a partir do início da década de70, publicou, para além da colaboração em diversas revistas da especialidade, com destaque para o QST, seis volumes a saber: «All About Cubical Quad Antennas», « Beam Antenna Hanbook», «The Truth About CB Antennas», VHF Handbook for Radio Amateurs», «Care and Feeding of Power Grid Tubes» e, por último, «Better Shortwave Reception»). Foi o que se chama uma noite feliz. Aquele colega, de imediato se prontificou a mandar-me tudo quanto tinha a propósito do que de melhor ele havia realizado: nada menos do que um estudo completo sobre a antena «Cubical Quad».
De posse deste excelente estudo e adquirido o material para a sua construção (as canas da índia, com 4 metros,  foram adquiridas no horto do Alto da Maia (Ermesinde) e tratadas por um especialista na construção de canas de pesca) convidei dois colaboradores habituais nestas andanças (um marceneiro muito criativo e um ajudante do matadouro do Porto que, para além do físico e de uma força invejáveis, era um ser humano de grandes qualidades). Contactado o Comando da GNR local, lá consegui que nesse dia o trânsito fosse desviado da Av.ª de São Lourenço, onde residia, deixando-me espaço para montar as duas cruzetas com 7,5 metros e onde haveria de implantar três quadrados de fio entrançado,  em cada uma delas, sendo o maior de 5,36 de lado e, o mais pequeno, de 2,5 metros. O tubo de 2 polegadas com 6 metros já se encontrava no interior de um outro com 3, com o mesmo comprimento, tendo, no seu interior, dois rolamentos e no topo, um outro, que faziam deste conjunto o indispensável movimento de 360º para rodar, desde o «shack», a antena. Colocada aquela monstruosidade no topo do telhado e com a ajuda do CT1IQ, que na sua estação, a pouco mais de 1 km, me ía dando os resultados das alterações, enquanto procedia às afinações. Primeiro, a operação para eliminar as estacionárias, colocando os irradiantes nas frequências que mais me convinham; depois, e esta a mais difícil, curto-circuitar os «stubs» do reflector para obter a maior relação frente/costas e o maior ganho frontal, o que foi conseguido ao fim de 4 horas.
No dia seguinte, como foi gratificante todas as despesas feitas e todo o trabalho a que fomos obrigados, o radioamador do Golungo Alto, com o meu irmão e a família a «bordo», escutou-me com sinais fantásticos (5-9 a 5-9+10), possibilitando-me o dia mais felizes da minha vida de radioamador.

sábado, 7 de maio de 2011

A Primeira experiência como Radioamador

Sábado, 7 de Maio de 2011

A minha primeira experiência como radioamador

II PARTE
Os Primeiros Passos no Radioamadorismo
Feito o exame para a classe D, logo se iniciou a actividade que passou pela utilização da estação de CT1IQ, na qualidade de 2.º operador. Havia que ganhar experiência e hábito das normas, então bem rígidas, de primeiro escutar, depois tomar nota dos colegas que estavam no QSO e, a seguir, aguardar o fim da lista para pedir permissão para «entrar». O colega que se seguia, na ordem de participação, assinalava a nossa presença e fazia os cumprimentos da praxe, bem como todos que se lhe seguiam. O último da lista, após ter dissertado sobre o assunto em discussão, passava-me a palavra. Lembro-me que lá consegui atacar o microfone, não sem que as pernas me tremessem e as palavras de circunstância me faltassem, muito embora a facilidade que a minha profissão obrigava, de bem dizer e bem escrever. O que verifiquei é que todos me acolheram com palavras de ânimo e de incentivo, ficando logo ali estabelecido, que começaria a fazer parte daquela «roda» e poderia solicitar a ajuda de quaisquer deles. Os dias foram passando e como tinha de cumprir as minhas obrigações profissionais - o tempo não se compadecia com a minha actividade de radioamador - pelo que tive de fazer um compasso de espera. Assim, todos os momentos de lazer eram dedicados ao estudo da electrónica, da telegrafia e das normas de bem conduzir um comunicado. Aqui falou mais alto a experiência de alguns colegas mais velhos que, pacientemente, me elucidavam de como programar o meu estudo e prontificaram-se a ministrar um curso de telegrafia. Convém esclarecer que o exame que havia feito, para a classe D, me permitia operar durante cinco anos, findos os quais, se não obtivesse aprovação para a classe C, deixaria de ser radioamador e se, entretanto, tivesse montado estação, teria de colocá-la na prateleira.
O tempo corre célere e quando «acordamos» sentimos que ou nos empenhamos seriamente ou o nosso «hobby» vai passar à história.
Entretanto, a pressão que sobre mim era feita pelos radioamadores das proximidades para que começasse a adquirir o material indispensável para montar a estação era de tal modo que não me deixavam alternativa. Fui a uma das empresas que representavam a Geloso e lá comprei um bloco de radiofrequência para transformar o meu «musiqueiro» - um «Ponto Azul» que me tinha sido oferecido - num receptor de comunicações; um VFO da mesma marca para dar início ao emissor (uma 6L6 a atacar uma 807), dois autotransformadores (110/220) que ligados em série, a que se seguia um dobrador de tensão, dariam a alta-tensão necessária para o andar final do emissor e para as duas 807 que serviam de modulador. Quando coloquei as caixas de alumínio, que entretanto havia mandado fazer num serralheiro lá do burgo, em cima da secretária, verifiquei que me não sobrava espaço para montar a minha bancada de trabalho.
Consultada a «cara-metade», que pacientemente ía vendo as economias a desaparecer, lá estabelecemos que, uma das assoalhadas, da vivenda que servia de morada, iria ser destinada ao «shack» - assim se chamava a dependência onde exercíamos a nossa actividade e, paralelamente, a «bancada» onde montavamos os nossos aparelhos e acessórios - constituindo, a partir desse dia, o meu reduto exclusivo.
Quando fiz o anúncio de que tinha adquirido o material necessário para montar a estação e que iria dar início aos «trabalhos» no dia seguinte, estava longe de adivinhar o que tal anúncio iria originar.
Cerca das 10 horas (hora para mim idêntica às 2 para qualquer mortal, uma vez que o meu horário no jornal era das 21 às 2 - o jornal saía para a distribuição às 4, não sem que antes tivesse de ser impresso -, sou acordado pela minha mulher, anunciando-me que alguns colegas já se encontravam no «shack» e requeriam a minha presença.
Depois da «lavagem de estrada» e ainda meio ensonado, entro naquela dependência, onde já se encontravam três colegas que procediam aos preparativos para a montagem da estação. Eram eles: CT1GE, dr. Oliveira Alves (médico militar); CT1OZ, técnico de electrónica numa das maiores empresas do ramo na cidade do Porto; CT1EE, dr. Fernando Pinheiro, um solteirão que vivia lá para os lados da Constituição, com a mãe e uma tia, e a quem chamavam o médico dos pobres, aliás, por mim confirmado; CT1UK, o «arranca dentes» como carinhosamente era denominado. Convém esclarecer que o CT1IQ, não podia estar presente, uma vez que o horário da secretaria do jornal era das 10 as 18 horas.
A azáfama foi tremenda, os berbequins, as chaves de fenda e o material adquirido eram manejados como se de uma operação cirúrgica se tratasse. A hora de almoço passou sem que quaisquer de nós se apercebesse, mau grado a constante interpelação da XYL que desesperava, uma vez que o almoço já não podia esperar muito mais.
Cerca das 16 horas, o trabalho estava terminado e tudo ligado (a antena já tinha sido montada uns meses antes) deu-se início aos testes. Tudo estava conforme determinam os cânones. O primeiro QSO não se fez esperar. O CT1GE, no comando das operações, solicitava controle de emissão e modulação aos colegas que iam aparecendo nos diversos pontos do País. Finda a função e na presença de todos fiz o meu primeiro contacto. Foi meu «padrinho» o CT1PK, dr. Fragoso de Almeida, que desde o Cartaxo, me convidou para, numa próxima oportunidade, oficializar o acto, nas «termas» onde a «água das pedras do lagar», da sua propriedade eram um autêntico nectar dos deuses.
FIM da II Parte   





























 

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