domingo, 8 de maio de 2011

O primeiro «barrete»

Quando recebi o estudo da «Cubical Quad» dei disso conhecimento a alguns radioamadores que constituíam o qso habitual dos 80 metros. Todos se congratularam pelo sucedido e grande parte deles me pediram para lhes enviar, ou entregar pessoalmente, cópias desse estudo, a que se seguiram algumas visitas a minha casa, para apreciarem o aparato da antena no cimo do telhado e verificarem o seu comportamento. É claro que tudo isto me havia de envolver na construção de outra, tendo, depois, conseguido que um colega de Vila do Conde se encarregasse de satisfazer os pedidos que de todos os lados começaram a surgir.
Mas voltemos ao tema: Aquando do QSO referido logo surgiu o CT1LD que, muito convicente, me disse ter na sua posse um esquema que duplicaria a eficácia da antena, como tinha comprovado em outras ocasiões e que a estava a usar na antena que utilizava para fazer DX. Logo surgiram outros colegas que corroboraram as afirmações do CT1LD, alguns dos quais afirmavam estar a utilizar o dito aparelho, fruto do esquema cedido por aquele colega, e a que davam o nome de «propagaciómetro».
Depois de todas as provas e da sua dissertação tão convincente, não resisti à tentação de lhe pedir que me enviasse o dito esquema para melhorar o meu sistema irradiante.
No dia seguinte, pelo correio, recebi um «gordo» envelope, que numa folha A4 descrevia o dito cujo. Nada menos nada mais que o desenho da quadrangular cúbica no cimo do telhado e um indivíduo, cá de baixo, com um fole, soprava para a antena. Tudo descrito ao pormenor, aconselhando-me a divulgar o dito aparelho, especialmente aos colegas americanos, a quem eu dispensava a maior parte do meu tempo de rádio em detrimento dos colegas portugueses.
Admirei a paciência do colega CT1LD e achei tal piada ao «barrete» que ainda hoje conservo a folha com o «esquema».
Nota: Foi a defesa que fiz deste prestável radioamador e a sua pronta disponibilidade para ajudar todos os radioamadores a passarem os equipamentos que mandavam vir dos Estados Unidos sem intervenção da Alfândega servindo-se naturalmente da sua profissão para o fazer, que me levou a presidente da Rede dos Emissores Portugueses, num  primeiro mandato, visto que, no segundo, competi com o meu homónimo Nelson Soromenho, tendo sido eleito por voto directo e secreto, realizado na Casa do Minho.
O que na altura disse e repito é que nos competia analisar o radioamador e não o sub-director da polícia.

O Início de uma realização no radioamadorismo

                                                               Capítulo I
O Dia mais feliz da minha vida de radioamador
Muito embora a minha experiência tivesse sido iniciada a «bordo» da estação do CT1IQ, estava muito longe de abarcar todo o mundo de objectivos que se me colocavam conforme ía avançando na leitura das revistas e livros que o mercado me disponibilizava e descobria, umas vezes por indicação de colegas mais experientes outras pela investigação que fazia nos contactos com colegas americanos -  para mim e nos longos anos de actividade, os mais indicados pela incrível facilidade de aquisição de componentes quer pelo preço quer pela diversidade - foi assim que fui caminhando na construção de novos equipamentos e antenas, aproveitando a facilidade das minhas constantes viagens por alguns países onde sempre aproveitava algum tempo livre para visitar estabelecimentos de componentes de electrónica, com especial incidência nos que se dedicavam quase em exclusivo ao Radioamadorismo. Não raras vezes aqui encontrei colegas com quem travei conhecimento e que daí em diante passaram a fazer parte do meu dia-a-dia de contactos. Seria fastidioso para quem tem a paciência de ler estas minhas memórias suportar a longa lista de nomes e indicativos que fui coleccionando, principalmente nos primeiros dez anos de actividade.
Decorria o ano de 1963 quando tive conhecimento que na vila, no interior de Angola, onde o meu irmão era Administrador de Concelho existia um radioamador. O meu posto emissor (DX60, HR10 e um HG10 da Heathkit), embora de razoável qualidade, para a época, não se mostrava suficiente para atingir as longínquas terras da África Equatorial. A luta começou, sem tréguas, tinha de atingir o Golungo Alto (assim se chamava a povoação onde o meu irmão se encontrava) sem demora. Depois de ter experimentado todo o tipo de antenas que os colegas mais experientes me aconselhavam, sem sucesso, eis que uma noite, consegui falar com o W6SAI, William Orr, por conselho do eng.º Maxwel, à altura a desempenhar funções na NASA. A conversa não foi longa, o suficiente para lhe dizer das minhas intenções e das dificuldades com que estava a deparar (esquecia-me de esclarecer, para quem não viveu aquela época, que aquele prestigiado radioamador era considerado um dos maiores investigadores na área das antenas e, a partir do início da década de70, publicou, para além da colaboração em diversas revistas da especialidade, com destaque para o QST, seis volumes a saber: «All About Cubical Quad Antennas», « Beam Antenna Hanbook», «The Truth About CB Antennas», VHF Handbook for Radio Amateurs», «Care and Feeding of Power Grid Tubes» e, por último, «Better Shortwave Reception»). Foi o que se chama uma noite feliz. Aquele colega, de imediato se prontificou a mandar-me tudo quanto tinha a propósito do que de melhor ele havia realizado: nada menos do que um estudo completo sobre a antena «Cubical Quad».
De posse deste excelente estudo e adquirido o material para a sua construção (as canas da índia, com 4 metros,  foram adquiridas no horto do Alto da Maia (Ermesinde) e tratadas por um especialista na construção de canas de pesca) convidei dois colaboradores habituais nestas andanças (um marceneiro muito criativo e um ajudante do matadouro do Porto que, para além do físico e de uma força invejáveis, era um ser humano de grandes qualidades). Contactado o Comando da GNR local, lá consegui que nesse dia o trânsito fosse desviado da Av.ª de São Lourenço, onde residia, deixando-me espaço para montar as duas cruzetas com 7,5 metros e onde haveria de implantar três quadrados de fio entrançado,  em cada uma delas, sendo o maior de 5,36 de lado e, o mais pequeno, de 2,5 metros. O tubo de 2 polegadas com 6 metros já se encontrava no interior de um outro com 3, com o mesmo comprimento, tendo, no seu interior, dois rolamentos e no topo, um outro, que faziam deste conjunto o indispensável movimento de 360º para rodar, desde o «shack», a antena. Colocada aquela monstruosidade no topo do telhado e com a ajuda do CT1IQ, que na sua estação, a pouco mais de 1 km, me ía dando os resultados das alterações, enquanto procedia às afinações. Primeiro, a operação para eliminar as estacionárias, colocando os irradiantes nas frequências que mais me convinham; depois, e esta a mais difícil, curto-circuitar os «stubs» do reflector para obter a maior relação frente/costas e o maior ganho frontal, o que foi conseguido ao fim de 4 horas.
No dia seguinte, como foi gratificante todas as despesas feitas e todo o trabalho a que fomos obrigados, o radioamador do Golungo Alto, com o meu irmão e a família a «bordo», escutou-me com sinais fantásticos (5-9 a 5-9+10), possibilitando-me o dia mais felizes da minha vida de radioamador.

sábado, 7 de maio de 2011

A Primeira experiência como Radioamador

Sábado, 7 de Maio de 2011

A minha primeira experiência como radioamador

II PARTE
Os Primeiros Passos no Radioamadorismo
Feito o exame para a classe D, logo se iniciou a actividade que passou pela utilização da estação de CT1IQ, na qualidade de 2.º operador. Havia que ganhar experiência e hábito das normas, então bem rígidas, de primeiro escutar, depois tomar nota dos colegas que estavam no QSO e, a seguir, aguardar o fim da lista para pedir permissão para «entrar». O colega que se seguia, na ordem de participação, assinalava a nossa presença e fazia os cumprimentos da praxe, bem como todos que se lhe seguiam. O último da lista, após ter dissertado sobre o assunto em discussão, passava-me a palavra. Lembro-me que lá consegui atacar o microfone, não sem que as pernas me tremessem e as palavras de circunstância me faltassem, muito embora a facilidade que a minha profissão obrigava, de bem dizer e bem escrever. O que verifiquei é que todos me acolheram com palavras de ânimo e de incentivo, ficando logo ali estabelecido, que começaria a fazer parte daquela «roda» e poderia solicitar a ajuda de quaisquer deles. Os dias foram passando e como tinha de cumprir as minhas obrigações profissionais - o tempo não se compadecia com a minha actividade de radioamador - pelo que tive de fazer um compasso de espera. Assim, todos os momentos de lazer eram dedicados ao estudo da electrónica, da telegrafia e das normas de bem conduzir um comunicado. Aqui falou mais alto a experiência de alguns colegas mais velhos que, pacientemente, me elucidavam de como programar o meu estudo e prontificaram-se a ministrar um curso de telegrafia. Convém esclarecer que o exame que havia feito, para a classe D, me permitia operar durante cinco anos, findos os quais, se não obtivesse aprovação para a classe C, deixaria de ser radioamador e se, entretanto, tivesse montado estação, teria de colocá-la na prateleira.
O tempo corre célere e quando «acordamos» sentimos que ou nos empenhamos seriamente ou o nosso «hobby» vai passar à história.
Entretanto, a pressão que sobre mim era feita pelos radioamadores das proximidades para que começasse a adquirir o material indispensável para montar a estação era de tal modo que não me deixavam alternativa. Fui a uma das empresas que representavam a Geloso e lá comprei um bloco de radiofrequência para transformar o meu «musiqueiro» - um «Ponto Azul» que me tinha sido oferecido - num receptor de comunicações; um VFO da mesma marca para dar início ao emissor (uma 6L6 a atacar uma 807), dois autotransformadores (110/220) que ligados em série, a que se seguia um dobrador de tensão, dariam a alta-tensão necessária para o andar final do emissor e para as duas 807 que serviam de modulador. Quando coloquei as caixas de alumínio, que entretanto havia mandado fazer num serralheiro lá do burgo, em cima da secretária, verifiquei que me não sobrava espaço para montar a minha bancada de trabalho.
Consultada a «cara-metade», que pacientemente ía vendo as economias a desaparecer, lá estabelecemos que, uma das assoalhadas, da vivenda que servia de morada, iria ser destinada ao «shack» - assim se chamava a dependência onde exercíamos a nossa actividade e, paralelamente, a «bancada» onde montavamos os nossos aparelhos e acessórios - constituindo, a partir desse dia, o meu reduto exclusivo.
Quando fiz o anúncio de que tinha adquirido o material necessário para montar a estação e que iria dar início aos «trabalhos» no dia seguinte, estava longe de adivinhar o que tal anúncio iria originar.
Cerca das 10 horas (hora para mim idêntica às 2 para qualquer mortal, uma vez que o meu horário no jornal era das 21 às 2 - o jornal saía para a distribuição às 4, não sem que antes tivesse de ser impresso -, sou acordado pela minha mulher, anunciando-me que alguns colegas já se encontravam no «shack» e requeriam a minha presença.
Depois da «lavagem de estrada» e ainda meio ensonado, entro naquela dependência, onde já se encontravam três colegas que procediam aos preparativos para a montagem da estação. Eram eles: CT1GE, dr. Oliveira Alves (médico militar); CT1OZ, técnico de electrónica numa das maiores empresas do ramo na cidade do Porto; CT1EE, dr. Fernando Pinheiro, um solteirão que vivia lá para os lados da Constituição, com a mãe e uma tia, e a quem chamavam o médico dos pobres, aliás, por mim confirmado; CT1UK, o «arranca dentes» como carinhosamente era denominado. Convém esclarecer que o CT1IQ, não podia estar presente, uma vez que o horário da secretaria do jornal era das 10 as 18 horas.
A azáfama foi tremenda, os berbequins, as chaves de fenda e o material adquirido eram manejados como se de uma operação cirúrgica se tratasse. A hora de almoço passou sem que quaisquer de nós se apercebesse, mau grado a constante interpelação da XYL que desesperava, uma vez que o almoço já não podia esperar muito mais.
Cerca das 16 horas, o trabalho estava terminado e tudo ligado (a antena já tinha sido montada uns meses antes) deu-se início aos testes. Tudo estava conforme determinam os cânones. O primeiro QSO não se fez esperar. O CT1GE, no comando das operações, solicitava controle de emissão e modulação aos colegas que iam aparecendo nos diversos pontos do País. Finda a função e na presença de todos fiz o meu primeiro contacto. Foi meu «padrinho» o CT1PK, dr. Fragoso de Almeida, que desde o Cartaxo, me convidou para, numa próxima oportunidade, oficializar o acto, nas «termas» onde a «água das pedras do lagar», da sua propriedade eram um autêntico nectar dos deuses.
FIM da II Parte   





























 

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Como tudo começou

TUDO TEM UM PRINCÍPIO

Ingressei nos quadros de «O Primeiro de Janeiro», em 1955, a convite do seu director, Manuel Pinto de Azevedo Júnior, por influência de um dos colaboradores Daniel Constante. Passado o período de adaptação e já com residência, na Avenida de S. Lourenço, em Ermesinde, onde também residiam o Claudino Diniz, CT1UK e Adérito Ferreira, CT1IQ, este meu colega (administrativo) naquele jornal diário.
O convívio obrigatório com estes radioamadores, nas horas de lazer, normalmente no Café Conquistador ou no Cruzeiro - e digo obrigatório, porque, como acontece com a maioria das pessoas que chegam a uma localidade pela primeira vez, e não constituíram ainda o seu núcleo preferencial de convívio, passa por aqueles que vivendo na mesma localidade e trabalhando na mesma instituição são companhia obrigatória durante as viagens de ida e volta (casa-emprego-casa) - obrigava a que a conversa se restringisse à actividade de radioamador, quer relatando as suas aventuras de contacto a longa distância (Dx´s) quer dando conta das suas experiências na modificção dos emissores e receptores ou da instalação de novas antenas. É claro, que assistia a estas longas descrições, com algum interesse, mas, como é óbvio, sem perceber «patavina» do que ambos falavam.
Mas o inevitável aconteceu. Num daqueles dias, a convite do CT1UK e a pretexto de uma nova antena que tinha acabado de montar no palacete onde residia, no início da Rua da Formiga, lá fui visitar a estação deste excelente e muito activo radioamador. Os fios da antena confundiam-se com a ramada da vinha implantada no terreno anexo à casa, a estação emissora era um amontoado de fios com muito material para mim desconhecido. No meio da troca de ideias técnicas entre aqueles dois parceiros de café, surgiu o convite sacramental: então, Nelson, porque é que você, não partilha do nosso «hobby», e, assim, acompanha com interesse as nossas conversas, dando-nos, por outro lado, a ajuda que nós precisamos para desenvolver a actividade? Acolá mesmo ficou decidido que iria requerer o meu primeiro exame para radioamador. O CT1UK não era homem que admitisse uma recusa e a diferença de idade que nos separava, impunha um respeito quase intocável pelas suas opiniões ou sugestões. O CT1IQ, jovem como eu, olhou de soslaio e, meio incrédulo, assistiu ao meu assentimento. A partir deste dia passei a ter muitos colegas e amigos: a minha apresentação havia de decorrer dias depois.

 

domingo, 1 de maio de 2011

A Imagem do passado e o presente

ONDE FAZEM A SOLIDÃO, DIZEM QUE ESTABELECEM A PAZ
 – O RADIOAMADORISMO NÃO É EXCEPÇÃO
Pouco a pouco vamos reconhecendo que o País não é uma coutada onde um senhor todo-poderoso escravizava os seus súbditos, impondo as suas regras, cobrando os seus impostos, obrigando à permanência no território onde os seus «capangas» espancavam e roubavam o pouco que cada um produzia. A opulência de uns (poucos) contrastava com a pobreza generalizada.
Constatamos que nem tudo acabou, nem todos ultrapassaram os traumas de uma revolução a que em surdina foram obrigados a «aceitar». Por um lado clamam a sua pretensiosa humildade não deixando de se fazer transportar em topos de gama, esquecendo as suas origens; distribuem as suas benesses, não por gente necessitada que espera superar a fome, a falta de meios para satisfazer as suas necessidades primárias de saúde, mas por uma «elite» sem escrúpulos que aceita tudo sem olhar ao que isso deveria ofender a sua dignidade e o seu pudor. Esses frustrados, esses deslocados, esses pobres de espírito mas ricos de pretensões que não conseguiram obter a sua realização porque a necessidade de entrar numa sociedade que não era a sua os levaram a vender o corpo e a alma, vão morrer sem conseguir os seus intentos porque o regime mudou não lhes dando tempo para subir ao pedestal com que sempre sonharam e a que sacrificaram os melhores anos da sua vida, independentemente de chafurdarem na imoralidade e na mentira. Num remoque de consciência ainda quiseram sair da «lama» em que se tinham atolado mas os acontecimentos não lhe foram favoráveis e, assim, não tiveram coragem de prosseguir na senda da sua vontade. O dilema de voltar ao desconhecido e à classe média, assustou-os. A sua vaidade superou a sua honestidade moral. Como poderiam encontrar os seus «súbditos» tornando-se seu igual? Onde ficaria a sua arrogância, a sua supremacia capitalista, o seu «pseudo-poder». Como poderia trocar o seu topo de gama por um utilitário? Como poderia continuar a viver afrontando o desprezo dos seus «amigos»? Não… o horizonte com que viriam a deparar-se não seria compreendido e, então, o desprezo – que é a vingança – dos imorais favorecidos seria um fardo demasiado pesado para o seu ego. Há que continuar a exercer um poder fictício ainda que o imposto a pagar seja pesado. A necessidade de manter, ainda que liminarmente, a imagem de um «ditador», a criação de exemplos pouco dignificantes desse saudosismo não é, nem nunca será, o meio de ultrapassar todas as frustrações sentidas, não é assim que se ultrapassam os rancores e os ódios a um regime que foram obrigados a aceitar e que encapotadamente tentam não exteriorizar. Como deve ser triste viver sob o peso deste fardo. Pena é que no seu percurso encontrem ainda quem os aplauda, quem os bajule, quem lhes dê coragem para continuar.
A moral e a dignidade deveriam impor o desprezo por esta gente, que apesar de em número muito reduzido, ainda está instalada no nosso meio.
«Vade retro, Satanaz!».
Nelson Alves – CT1MV